FICAMOS ALEGRES COM SUA VISITA

ESPERAMOS, QUE COM A GRAÇA SANTIFICANTE DO ESPIRITO SANTO, E COM O DERRAMAR DE SEU AMOR, POSSAMOS ATRAVÉS DESTE HUMILDE CANAL SER VEÍCULO DA PALAVRA E DO AMOR DE DEUS, NÃO IMPORTA SE ES GREGO, ROMANO OU JUDEU A NOSSA PEDRA FUNDAMENTAL CHAMA-SE CRISTO JESUS E TODOS SOMOS TIJOLOS PARA EDIFICACÃO DESTA IGREJA QUE FAZ O SEU EXODO PARA O CÉU. PAZ E BEM

AGRADECIMENTO

AGRADECEMOS AOS NOSSOS IRMÃOS E LEITORES, POR MAIS ESTE OBJETIVO ATINGIDO, É A PALAVRA DE CRISTO SEMEADA EM MILHARES DE CORAÇÕES. PAZ E BEM

segunda-feira, 23 de março de 2009

TUDO ISTO TE DAREI


Mais do que nunca vivemos num tempo em que ter é melhor do que ser; onde a posição, o status, a afirmação e a autoafirmação são buscados a qualquer custo, não importam as consequências. O mundo hodierno dita as regras e as massas, atormentadas pelo "não ter", se lançam freneticamente em busca de algo que lhes promovam destaque, mesmo que seja uma aparência qualquer. O consumismo desenfreado e a oferta sempre facilitada a possuir mais, pressionam e escravizam as pessoas que, inclinadas ao material, tornam-se fiéis e adoradoras do deus empórion.

Mas quando olhamos para o Novo Testamento, especialmente para Mateus 4 e Lucas 4, fica-se entendido quem foi o 'autor' da idéia do TER. Mateus registrou: "Depois, o Diabo o (Jesus) levou a um monte muito alto e mostrou-lhe todos os reinos do mundo e o seu esplendor" (4.8-NVI), e em Lucas temos: "E lhe disse: Eu te darei toda a autoridade sobre eles e todo o seu esplendor, porque me foram dados e posso dá-los a quem eu quiser" (4.6-NVI). Seria uma oferta irrecusável para qualquer um que deseja ser uma "celebridade" hoje, menos para Jesus.

No conjunto das tentações de Jesus, oferecer-lhe o "ter" e o "esplendor", tem a ver com o despertamento do 'ego', do 'ter' acima do 'ser', do status, da posição elevada, do poder. Sim, do poder absoluto. O Diabo ofereceu a Jesus tudo aquilo que os homens, em todo os tempos, buscam a qualquer custo: poder, grandeza, riquezas, bens. Nessa tentação muitos têm caído e nela permanecem.

O verbo tentar (πειράζω/peirázô) significa testar, provar, instigar. Portanto, a tentação é envolver, convencer, induzir alguém a praticar o mal. A tentação não somente testa a capacidade e o caráter da pessoa para si mesma, fortalecendo-a, como também prova aos outros a sua integridade e a identidade daquilo que é de fato. Ou seja, os outros ficam sabendo da firmeza de caráter após alguém ser provado.

A tentação de Cristo foi uma prova legítima de sua verdadeira humanidade. Foi a oportunidade dele se identificar com as nossas fraquezas e sofrimentos. Com uma diferença apenas, sem ter cometido pecado (Hb 2.14-18). A sua identificação com o pecador é autêntica. Por essa razão é que ele socorre aqueles que são tentados, pois ele mesmo foi aprovado por Deus para ser o nosso perfeito sumo-sacerdote (Hb 4.4-16).

A tentação de Jesus também foi uma prova de que Satanás (Σατανάς – inimigo, adversário, opositor) pode ser derrotado por aqueles que lhe resistem firmados na Palavra de Deus (1Pd 5.8-9; Tg 4.7).

A todas as investidas de Satanás, Jesus respondeu com afirmações das Sagradas Escrituras. Todas as três respostas de Jesus ao tentador estão no Livro de Deuteronômio (8.3; 6.13,16). São citações curtas, porém, eficazes e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes (Hb 4.12; Ef 6.17).

Assim como Diabo ao induzir Jesus à tentação pelos meios da "fé", tudo o que as pessoas mais almejam hoje em termos de poder, status, glória, bens materiais, prosperidade e tudo mais, são-lhes oferecidos no âmbito da fé religiosa evangélica. Foi exatamente o que aconteceu com Jesus. O Diabo é um ser "religioso", não é "ateu". Ele não veio a Jesus com chifres, um tridente na mão e fedendo enxofre. Ele veio a Jesus com a 'Bíblia', se não na mão mas na ponta da língua. E a Bíblia foi citada para Jesus (Mt 4.6 par. Sl 91.11-12).

Muitas pessoas estão sendo ensinadas por "diabos", que lhes pregam a Bíblia com falsas interpretações, como fez Satanás a Jesus. Esses 'diabos' estão enganando as pessoas, infundindo em seus corações uma falsa esperança e prometendo-lhes coisas que nunca acontecerão. O engano é sagaz mas brilha aos olhos; a expectativa de elevar-se diante do "esplendor" do mundo é fantástica, mas tem deixado muitos na lama da decepção, no lixo da descrença.

Mas essa foi a tática usada pelo tentador e que não funcionou com Jesus. Ele ofereceu tudo mas com uma condição: "Tudo isto te darei, se prostrares e me adorares" (Mt 4.9-NVI). Quem adora se prostra ante ao ser adorado; e adorar ao Diabo significa prostrar-se no pior: na sujidade do pecado, no pó da desilusão, na infâmia da vergonha, na morte da esperança, na destruição da alma.

Jesus o refutou com a autoridade de sua palavra: "Retire-se, Satanás! Pois está ecrito: Adore o Senhor, o seu Deus, e só a ele preste culto" (Mt 4.10-NVI). O estilo de Jesus é diferente: "Pois vocês conhecem a graça de nosso Senhor Jesus Cristo que, sendo rico, se fez pobre por amor de vocês, para que por meio de sua pobreza, vocês se tornassem ricos" (2Co 8.9). O que Deus dá não tem mistério, não tem cilada, não tem perigo. O que o Diabo dá é muito complicado, é muito arriscado, é muito enganoso. Pode criar situações dificílima e irreversíveis, uma vez que ele é "mentiroso e pai da mentira" (Jo 8.44).

Em vez do "tudo isto te darei", procurem: "Não acumulem para vocês tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem destroem, e onde os ladrões arrombam e furtam" (Mt 6.19). Em Jesus há segurança.

GALARDÕES CELETIAIS, PREPAREMONOS PARA SURORESA


Quando a Bíblia se refere à palavra galardão, recompensa a ser recebida no céu, sempre desperta-me uma curiosidade de como isto se concretizará.

O que nos aguarda é certamente algo grandioso demais (e que vai bem além da nossa percepção humana), pois assim está escrito: "As coisas que o olho não viu, e o ouvido não ouviu, e não subiram ao coração do homem, são as que Deus preparou para os que o amam" (1 Coríntios 2:9b).

O galardão é o que cada cristão receberá na exata proporção do amor empregado em todas as coisas feitas para Deus nesta terra.

Entendo, e a Bíblia me assegura disto, que galardão nada tem a ver com salvação, pois esta se obtém unicamente pela fé depositada no sacrifício vicário realizado por Jesus Cristo na cruz do calvário.

Deus julgará cada serviço que realizamos para Ele, e só o Senhor é capaz de saber se o que fazemos é isento de atitudes ou intenções pecaminosas (auto-justificação, barganha, marketing pessoal).

Na distribuição dos galardões pelo Senhor, creio que muitos servos ficarão surpresos, pois a magnitude do esforço terreno em "favor da obra de Deus" talvez não venha corresponder à recompensa do que se irá receber nas mansões celestiais, pois o amor será a régua de medir o trabalho concretamente realizado.

No meu serviço para Deus, nada do que venho fazendo impressiona pelo teor das realizações, pois venho tentando construir com uma preocupação maior nos alicerces ...

Almejo pela chegada daquele grande dia, em que receberei o meu galardão. Se muito ou pouco, só Deus o sabe. Estou certo de que milhões de outros cristãos receberão bem mais do que eu, e isto, com 100% de certeza, não me fará cobiçar o que é dos meus irmãos, pois, como bem sabemos, no céu, não entrará pecado, já que lá estaremos definitivamente livres dos sentimentos carnais (como é o caso da inveja) que ainda carregamos dentro de nós, mesmo depois da nossa conversão.

Portanto, no que se diz respeito aos galardões celestiais, é inequívoco que a eternidade nos reserva grandes surpresas, “...porque o Senhor não vê como vê o homem, pois o homem vê o que está diante dos olhos, porém o Senhor olha para o coração” (1 Samuel 16:7b).

O SOBRE NATURAL DE DEUS


1 Reis 19: 11-13: "O SENHOR lhe disse: 'Saia e fique no monte, na presença do SENHOR, pois o SENHOR vai passar'. Então veio um vento fortíssimo que separou os montes e esmigalhou as rochas diante do SENHOR, mas o SENHOR não estava no vento. Depois do vento houve um terremoto, mas o SENHOR não estava no terremoto. Depois do terremoto houve um fogo, mas o SENHOR não estava nele. E depois do fogo houve o murmúrio de uma brisa suave. Quando Elias ouviu, puxou a capa para cobrir o rosto, saiu e ficou à entrada da caverna. E uma voz lhe perguntou: 'O que você está fazendo aqui, Elias?'".

Certa vez estava indo ministrar uma palestra e um amigo me deu uma carona até o lugar. Estávamos na estrada quando começamos a conversar sobre nossas experiências e caminhada.

Eu estava na época muito intrigado com o sobrenatural de Deus, esse termo de certa forma me remetia a algo que eu não concordava. Longe de estar questionando a onipotência de Deus, pois creio que Deus está muito além da nossa compreensão e entendimento. Deus é muito maior que qualquer mente humana.

A questão é que achava que as pessoas que se “apoderavam” ou que “esperavam” nesse sobrenatural tinham meio que uma postura de acomodação. Era uma questão minha e talvez motivada pelas minhas experiências pessoais.

Temos o privilégio de fazer parte de um estilo de vida maravilhoso e de sermos filhos de um Deus muito amoroso e gracioso. Naquela tarde, naquela estrada, conversando com meu amigo, Deus falou ao meu coração através da vida daquele brother.

Lembro que meu amigo me perguntou: Carlos, como é sua rotina de manhã, como você faz seu devocional? Eu respondi: Geralmente acordo, faço um alongamento de uns quinze minutos pra manter o corpo flexível pro surf, ai me ajoelho no tapete da sala, entrego minha vida a Deus, meu dia, peço para que Ele possa me usar da forma que deseja e que Ele me dê sensibilidade pra estar caminhando e ouvindo Seu direcionamento na vida. Ai me levanto e leio um capítulo do livro da Bíblia que estou lendo no momento. Através desse capítulo busco trazer algo prático pra minha vida.

Ele me disse: Cara, você quer algo mais sobrenatural do que isso? Acho que você está com preconceito com a palavra sobrenatural...

Naquela tarde, naquele momento, eu percebi que eu estava entendendo mal a questão do sobrenatural de Deus. Assim como questionava a postura dos amigos que viviam esperando a adrenalina, o poder, o sobrenatural acontecer, eu estava limitando a ação sobrenatural de Deus a isso também.

Assim como nos versículos que lemos acima, ouvimos os ventos, os trovões e esperamos ver Deus lá mas, muitas vezes, ele não está lá. Deus se manifesta muitas vezes na brisa suave.

Esperamos encontros de pura adrenalina e de puro poder quando muitas vezes Deus está nos ministrando através de um amigo enquanto viajamos na estrada.

Deus tudo pode, Deus não tem receita pronta e o convite que faço a você hoje é para perceber que Deus pode estar se expressando na sua vida de forma suave e de repente você pode estar deixando passar algo que Ele queira lhe dizer.

Creio que Deus nos ama tanto que se limita ao nosso entendimento, ao nosso universo para poder se relacionar de forma plena com a gente. Que a nossa sensibilidade possa estar em perceber que tudo que fazemos e que tudo que somos tem o propósito de estar na presença de Deus.

Nas brisas suaves da vida Deus está também querendo nos dizer muitas coisas.

QUEIXA DE FIEIS COM FOME


Pe Zezinho scj



Ele, engenheiro conceituado, ela, diretora e escola de bairro tomaram a liberdade e, juntos, ao saber que, desde l980, leciono Prática e Crítica de Comunicação nas Igrejas, desabafaram:
- Os fiéis da nossa diocese andam tomando sopa rala, não porque o desejem, mas porque nossos dois pregadores raramente oferecem sopa substanciosa, de conteúdo. Ou não sabem, ou não querem, porque o bispo prega maravilhosamente bem-, disse ele.
- O pároco que foi para Roma pregava coisa com coisa. Ele até trazia os livros para mostrar de onde tirava suas idéias. Acho que o bispo não está conseguindo tocar estes novos padres. Eles resolvem tudo mandando orar e dizendo que Jesus lhes disse para dizer. Pregam sempre a mesma coisa, com as mesmas palavras, domingo após domingo. Decoraram um sermão e não saem mais dele! E os erros que cometem contra a gramática são imperdoáveis!- emendou ela, eximia professora de português.



Desejei contradizê-los, mas infelizmente estão certos. Passaram-se quase trinta anos desde que optamos por lecionar em nossa escola de teologia Prática e Crítica de Comunicação nas Igrejas, para convencer os novos pregadores a lerem mais e a oferecerem um pouco do que leram aos fiéis, que nem sempre têm acesso aos documentos, aos livros e aos estudos da nossa fé. Deveríamos ser como os garçons que servem alimento sadio e sólido, preparado pela Igreja para o povo que vem sentar-se àquela mesa da Palavra. Leve, suave ou sólida, mas com suficiente conteúdo nossa pregação deveria ser recheada de textos e de conteúdo tirados do tesouro de tantos séculos de catolicismo. A maioria dos pregadores ignora esta caminhada. Parece que a sabedoria chegou com eles. Nem a pau eles citam os outros pensadores de outros caminhos da fé. Não citam nem mesmo as conferências episcopais e os papas.



Há os bem preparados e estudiosos que, graças a Deus são cada dia em maior número. Uma nova leva de seminaristas em alguns institutos gosta de livros e estuda até o cansaço. Eles nos dão esperança de pregações sólidas e de repercussão do que o papa diz a cada semana.



Mas a constatação daquele casal deveria chocar, incomodar e provocar seminaristas, catequistas, sacerdote e bispos. Não são os únicos a nos dizer que não estamos servindo bem à mesa da Palavra, nem saciando a fome do povo. Se há bispos e sacerdotes que quando abrem a boca oferecem um conteúdo para semanas de reflexão, há os outros dos quais os fiéis não guardam nenhuma palavra nova já que tudo é obvio demais.



No dizer daquele casal: é muito fervorzinho, muito “se entregue”,” ore”, “ouça” “dê seu coração”, muito entusiasmo de tocar e sentir Jesus e pouquíssimas citações explicadas do evangelho, de santos famosos, de autores profundos, de grandes teólogos de ontem e de hoje, ou de livros que merecem ser citados. Ignoram quase 2 mil anos de teologia católica.



Culpa de quem? Do povo é que não é! Alguém não abre os livros, às vezes nem sequer a Bíblia, alguém não lê os documentos e as palavras dos papas e dos bispos, alguém anda oferecendo sempre o mesmo do mesmo. Mas será que um artigo como este convencerá os pregadores a darem ao povo o que a Igreja disse mais do que aquilo que eles sentiram durante a última adoração?



-A pregação de muitos se individualizou e perdeu o conteúdo, de tal forma que até as duas merendeiras da escola que não tiveram chance de estudar, andam brincando com as pregações do nosso novo padre. Apostam para ver com que palavras ele vai começar e terminar o sermão no domingo seguinte. Já sabem que ele não trará nada de novo. Ele não estuda!



Não é que nós, professores, preguemos melhor ou sejamos mais santos do que estes irmãos piedosos. Não se pode negar que eles oram muito e amam a Igreja. Alguns deles são puros de sentimento e dedicados sacerdotes. Mas na hora de subir ao púlpito pecam por falta de leitura e por falta de transmitir o que leram ao povo que vem ouvi-los.



Um sacerdote que lê os documentos da Igreja, lê teologia, sociologia, filosofia, psicologia, antropologia certamente tem mais a dizer do que aquele que derrama maravilhosamente o seu coração diante do altar, mas no púlpito não resiste em falar de si mesmo, sempre as mesmas coisas e sempre do mesmo jeito. É que ele não lê.



Deus não precisa aprender mais quando o pregador lhe fala, mas o povo precisa! Por isso, o pregador que não lê livros profundos e cheios de sabedoria tem culpa. E como têm. Será como o médico que parou de ler. Há coisas das quais não gostamos, mas assim mesmo temos que nos valer: remédios e alimentos sólidos, por exemplo. Há outras que simplesmente não gostamos de fazer, mas que temos que fazê-las: por exemplo, ler mais e ler autores profundos! Também os que não dançam nem cantam, nem oram como nós!



Última Alteração: 10:54:00

Fonte: Pe. Zezinho, scj
Local:São Paulo (SP)

LIBERDADE DO CRISTÃO


Uma situação de conflito na Igreja: sintoma de um mal oculto
Paulo não se dava muito bem com a comunidade de Jerusalém. Não era culpa sua. Alguns cristãos de lá não confiava nele. Além de conservarem a lembrança dolorosa da perseguição que ele tinha movido contra eles (At 9, 13.26), acabava com as tradições e de que incitava os judeus do mundo inteiro a abandonarem a observância da lei de Moisés (At 18, 13; 21,28). Ele teria dito que a circuncisão já não valia mais nada (At 21,21). Seria mais ou menos como quando hoje alguém anda dizendo que o preceito dominical, o celibato, o jovem, o jejum eucarístico, as fitas, o terço, etc., não valem mais nada.
Paulo sentia profundamente essa falta de confiança dos seus irmãos na fé. Justamente ele, que tudo dera de si, por amor a Cristo, em quem eles também acreditavam (Gal 2,20; 2 Cor 10,1; 11,22-23; Fil 3, 5-8). Além de não ser verdadeira, a acusação contra ele era o sintoma de um mal oculto. Revelava uma divergência muito profunda entre Paulo e os seus colegas de Jerusalém. Tinham opiniões radicalmente opostas sobre o evangelho e sobre a função e o lugar de Jesus Cristo na vida dos homens.
Paulo achava perfeitamente compatível existir, dentro da unidade da fé, um certo pluralismo na maneira de se viver esta fé em Jesus Cristo.. Os judeus convertidos viviam essa fé, na sinceridade e na doação total, observando as prescrições de Moisés (At 21,20; cf 10,14.28; 11,3; 1,46) .Paulo não era contrário a isso. Ele mesmo, quando o julgava oportuno, observava a lei (1 Cor 9,20) . Nem por isso podia ser acusado de oportunista, pois não procurava seu próprio interesse. Mas ele não podia suportar a pretensão de alguns colegas de Jerusalém que queriam encampar a maneira judaica de se viver o evangelho, como sendo a única válida e verdadeira, e impô-la a todos como caminho obrigatório, para alguém poder participar da salvação de Cristo (At 15,1.5.24) .
Paulo achava que um pagão, convertido ao cristianismo, deveria poder viver essa mesma fé a seu modo, diferente dos judeus, mas com a mesma sinceridade e doação total. E era exatamente neste ponto que se manifestava a divergência. Os outros não tinham essa abertura de espírito e contestavam a iniciativa de Paulo. Talvez agissem sem maldade, impelidos por uma consciência mal formada. Paulo porém, tinha lá as suas dúvidas a respeito da sinceridade desses homens ( cf Gal 2,4-5; 4,17; 6,12; Fil 3,2) .Em todo o caso, eles trabalhavam ativa e organizadamente para conseguir o seu objetivo.
II
As dúvidas e as lutas internas, geradas pelo conflito
Provocou-se assim uma grande confusão dentro dá Igreja (At 15,2) .Ninguém sabia o certo. Quem tinha razão ? Paulo ou o grupo de Jerusalém, que se escondia atrás do nome do Apóstolo Tiago? (Gal 2,12) .Até Pedro, o chefe da Igreja, ficou na dúvida e na in- certeza, não sabendo logo encontrar o caminho certo, nessa problemática eminentemente prática, e deixou influenciar-se pelo grupo de Jerusalém (Gal 2,11-14) .
A Igreja estava numa encruzilhada e ninguém sabia o caminho certo a ser seguido. Aquilo não fora previsto; Cristo não deixara nada escrito; normas anteriores não eram capazes de equacionar o problema totalmente novo e que exigia criatividade. Era difícil escolher: continuando na linha dos mais moderados, não haveria o perigo da perseguição (Gal 6,12; 5,11) , mas também não haveria pagão que entrasse na Igreja, submetendo-se ao rito da circuncisão; a Igreja ficaria reduzida a uma seita judaica e seria tragada pelo tempo; continuando na linha de Paulo, o mundo judeu e romano iria abater-se sobre o cristianismo ( cf At 13,45; 13,50; 14,2.5 ; 16,20), mas a fé estaria aberta para todos os homens indistintamente. Que fazer? Atrair sobre si a reação de todos e colocar em perigo a sobrevivência da fé por excesso de velocidade, ou andar com mais calma e colocar em perigo a sobrevivência da fé por morte prematura?
Paulo era da primeira opinião e lutou por ela. Sofreu muito por causa dessa sua convicção. Os seus adversários fizeram tudo para diminuir a influência de Paulo. Procuravam contestar a sua autoridade: o evangelho pregado por ele seria só dele, e não dos apóstolos Pedro e Tiago (cf Gal 2,6-9; 1,19-23) .Destruída a sua autoridade, estaria solapada a base de todo o seu trabalho. Paulo teve que defender-se, mostrando não existir nenhuma divergência entre ele e aqueles do.is grandes apóstolos (Gál 2,1-10) .Fêz todo o possível para desfazer a impressão de que ele fosse um demolidor da lei e da tradição ( cf 2 Cor 11,21-23; 12,11; At 25,8; 24,14-15 ; 1 Cor 9,20; Rom 3,31; 10,4) .É possível que a reação dos outros contra Paulo fosse motivada apenas por medo de perseguição. É difícil julgar à longa distância. Paulo, ao menos, era desta opinião : «É só para não serem perseguidos por causa da cruz de Cristo !» (Gal 6,12) .Ele os chamava «irmãos falsos» (Gal 2,4; 2 Cor 11,26. 12-13) .



III
A convicção de Paulo, traduzida em atitudes práticas
A Paulo. pouco importava alguém ser circunciso ou não, ser um cristão vindo do judaísmo ou do paganismo (Gal 6,15; 5,6; 1 Cor 9,20) .Não proibia ninguém a observar a lei de Moisés. Mas também não suportava a pretensão dos outros de que essa lei fosse necessária para se poder ser cristão. A salvação que Cristo trouxe, essa estava aberta a todos, pois segundo Paulo, bastava a fé em Jesus Cristo, entendida como adesão total a ele (Gal 3,22; 2,15-19. 21) . Diante de Cristo, todo o mundo está em pé de igualdade. Todo o resto, as observâncias, as prescrições e aquela quantidade inumerável de normas, tudo passou para o plano secundário de instrumento e meio .
Por isso, quando lhe convinha, isto é, para poder fazer-se judeu com os judeus, Paulo observava a lei de Moisés (1 Cor 9,20) . Fez até questão de circuncidar Timóteo, para facilitar o relacionamento com os judeus (At 16,3) .Mas opôs-se energicamente a fazer o mesmo com Tito, quando os outros queriam fazer disso uma questão de princípio (Gá12,3-5*; 5,2).
O mesmo se diga daquelas observâncias judaicas em relação à comida e à bebida. Paulo achava que, em tudo isso, o que tinha valor mesmo era a consciência (Rom 14,1-5) Que cada um fizesse o que bem entendia, mas que seguisse sempre a sua consciência e que fizesse tudo para o Senhor (Rom 14,6-9) , porque, afinal, «o reino de Deus não é uma questão de comida e de bebida» (Rom 14,17) .Que fossem livres realmente (Gal 5,1). Porém, quando os outros queriam fazer dessas coisas secundárias uma questão de princípio, então ele reagia fortemente, até contra o próprio Pedro (Gal 2,11-14), e denunciava as pretensões deles como contrárias à vontade de Deus, como coisas que apenas «favorecem o orgulho» (Col 2,23) .Não passavam de prescrições humanas (Col 2,22) .
Paulo tinha horror àquela uniformidade no agir, imposta em nome da fé. Não gostava de gente que, por não entender nada do principal, se levantava em defensor de coisas secundárias, querendo definir por elas a ortodoxia de alguém. Assim como ele dizia : «O reino de Deus não é uma questão de comida e de bebida», poderíamos repetir hoje: «0 reino de Deus não é uma questão de comunhão na mão ou na boca, de padre casado ou solteiro, de cor de paramento, de hábito branco ou marrom, de confissão uma vez por mês ou uma vez por ano, de missa com uma ou com três leituras, de jejum eucarístico de 50 ou de 60 minutos, de «E contigo também» ou de “Ele está no meio de nós», e de uma infinidade de outras questões que obnubilam a visão. 0 reino de Deus é «justiça, paz e alegria no Espírito Santo» (Rom 14,17) . 0 que vale mesmo é «a fé que opera e se manifesta na caridade» (Gál 5,6). O resto é bom, válido e útil enquanto tiver capacidade de levar a isso e for expressão sua. Do contrário, nada vale; certamente, “não provém daquele que vos chamou» (Gál 5,8) .
Em outra ocasião, Paulo chegou a tomar uma atitude que lhe deve ter custado muito. De volta a Jerusalém, depois da terceira viagem missionária ao mundo pagão, aceitou levar alguns homens ao templo, para cumprirem uma promessa, feita segundo a lei de Moisés. Era uma manobra de tática de alguns colegas seus de Jerusalém, para darem aos outros a impressão de que Paulo não era contrário à lei (At 21,20-24) . Mas em outra ocasião, em se tratando apenas de um problema de convivência à mesa, Paulo chegou a enfrentar Pedro publicamente (Gál 2,11-14) .Por motivo de tradições e convenções judaicas, Pedro se deixou envolver pelo grupo de Jerusalém e abandonou o convívio com os pagãos convertidos, comendo só com os judeus convertidos. Os pagãos, por causa disso, se sentiam reduzidos a uma categoria inferior de cristãos e se viam forçados, pela situação" a observarem aquelas mesmas convenções . Paulo, diante disso, reagiu fortemente: «Se você, embora sendo judeu, vive como um não-judeu, como então pode forçar os não- judeus a viverem como judeus ?» .E falou isso «na presença de todos» (Gál 2,14) .
Vê-se que, apesar dos interesses tão grandes em Jogo, a luta se trava sempre, tanto ontem como hoje, nas coisas bem comuns da vida, coisas irritantes de pequena monta; mas é lá que se decide a batalha. Um quilômetro se percorre, vencendo-o centímetro por centímetro .



IV
A liberdade em Cristo
O que Paulo prezava, antes de tudo, era a sua liberdade. Livre da lei (Gál 3,13), livre de tudo, para em tudo poder seguir a consciência nova, nele nascida a partir da sua adesão a Cristo (Gál 5,1; 2,4) .A obrigatoriedade não se impunha de fora, mas nascia de dentro. Por nada trocaria tal liberdade (Fil 3,7 -9) , e não permitia que outros impedissem os pagãos de viverem essa mesma liberdade (Gál 2,4-5) .Nem mesmo Pedro, o chefe supremo da Igreja, tinha autoridade para isso (Gál 2,14) .Nem mesmo aqueles «figurões» ou «super-apóstolos» de Jerusalém (2 Cor 11,5; 12,11) .Ele os enfrentava corajosamente, porque, assim escrevia, «eu acho que não sou em nada inferior a eles» (2 Cor 12,11) , pois «penso possuir, eu também, o Espírito de Deus» (1 Cor 7,40) .
A partir dessa sua visão, Paulo tomava as suas decisões, mas não sem antes consultar os outros apóstolos (Gál 2,1-2) que aliás, nunca tiveram nada a reprovar nele, ao menos em princípio (Gál 2,6-9) .Talvez, na prática, não conseguissem entender de todo o procedimento de Paulo. De fato, havia muita gente que não conseguia acompanhar Paulo em sua abertura, pois não, tivera a mesma luta e experiência por que ele passara. Paulo, por sua vez, também não exigia que todos pensassem como ele .Sabia respeitar a consciência dos outros. Sendo realmente livre, ele se fazia escravo de todos (1 Cor 9,19) .
Via no outro, por mais fraco e fechado que fosse, um «irmão por quem Cristo morreu» (1 Cor 8,11) .E se, por acaso, o seu procedimento livre pudesse ser motivo de queda para o outro, estava disposto a nunca mais comer carne, se com isso podia ajudar o irmão (1 Cor 8,13) ; praticou o que escrevia aos gálatas: «Fostes chamados, irmãos, à liberdade, não a uma liberdade que dê ocasião à carne; antes, sede escravos uns dos outros pelo amor» (Gál 5,13) .O amor o levava a respeitar a consciência dos outros. Só pedia que não dificultassem o seu trabalho, impondo restrições que nada tinham a ver com a fé em Cristo, e que não escondessem, sob o manto da fé e da boa ordem, a sua própria falta de coragem de enfrentar a realidade e as perseguições (Gál 6,12) .
Deve-se notar ainda que tudo isso, para Paulo, não ficava apenas em teoria ou em documento escrito. Ele tinha a coragem de ensiná-lo aos outros na prática e de assumir o risco das conseqüências. Tinha a coragem de dizer ao gálatas, povo simples e sem muita cultura: «Deixai-vos guiar pelo Espírito. Santo e já não cumprireis os desejos da carne» (Gál 5,16) .Os «desejos da carne» eram aquelas preocupações com as observâncias materiais de comida e bebida, com festas e normas e sobretudo com a circuncisão, a ser feita na carne. E não ficava nisso. Depois de ter indicado aos outros o caminho, ele não se esquivava, quando surgiam dificuldades com as outras autoridades. O compromisso de Paulo com Cristo se traduzia concretamente no compromisso com os outros . Êle não fazia distinções teológicas, para não ter que entrar na briga. Não distinguia muito entre teoria e prática. Para ele, a fé era uma atitude eminentemente prática. E apelava para este seu comportamento de compromisso real: «Daqui por diante ninguém me moleste mais, pois trago no corpo as marcas de Jesus» (Gál 6,17) . Aludia ao sofrimento e à tortura, suportados pelo bem dos outros .
V
Solução do problema: aceitação do pluralismo
Na medida em que o tempo passava, a confusão aumentava na Igreja. A convivência entre cristãos vindos do paganismo e cristãos vindos do judaísmo tornava-se cada vez mais difícil (At 15,1-5) .Era urgente resolver esse problema e obter uma visão mais clara do evangelho. Foi convocada uma reunião em Jerusalém, que entrou na história como o primeiro concílio ecumênico (At 15, 6) .A discussão foi longa (At 15,7). Mas no fím, Pedro falou e encerrou o assunto: o que salva mesmo e liberta o homem, é a fé em Jesus Cristo (At 15,11) .Falou assim, não para agradar a Paulo, mas porque ele mesmo vira e percebera, por própria experiência e por indicação divina, que esse era o caminho certo (At 15, 7-9; 10,44-48) .As visões se clarearam. Não foi proibida a observância da lei de Moisés . Foi apenas condenada a obrigatoriedade dessa observância para os pagãos convertidos (At 15,10) .Tiago apoiou a decisão de Pedro (At 15,13-19) e ambos se distanciaram definitivamente daqueles que andavam dizendo o contrário (At 15,24) . Fizeram questão de deixar bem claro esse ponto no comunicado
final da reunião: «Tendo sido informados de que alguns dos nossos, sem autorização da nossa parte, foram inquietar-vos com certas afirmações, lançando a confusão em vossas almas, resolvemos unânimimente designar alguns homens e enviá-los a vós, junto com nossos diletos Barnabé e Paulo, homens que expuseram sua vida em nome do Nosso Senhor Jesus Cristo» (At 15,24-26) .
Aceita em tese a pluralidade na maneira, de se viver a fé em Jesus Cristo, tentou-se concretiza-la na pratIca, dando-lhe uma certa estrutura. A tese é uma coisa, a prática é outra. Na aplicação da norma genérica, os apóstolos seguiram o bom senso. Não se podia, por exemplo, exigir de um judeu convicto, como era o caso de Pedro e de Tiago, que fossem viver como os cristãos vindos do paganismo. Nem era necessário. Não podiam exigir de Paulo que fosse adaptar-se às normas da convivência judaica. Por isso, deixaram a Paulo e Barnabé o cuidado pelas comunidades existentes no mundo pagão. Pedro e Tiago tomariam conta das comunidades do mundo judaico (Gál 2,7-9) .A todos, porém, assistia o direito de viver a sua fé em Cristo na santa liberdade da sua consciência Mas, em vista da convivência mútua, exigia-se dos pagãos convertidos que observassem quatro normas, propostas por Tiago (At 15, 20; 21,25)
Assim, a paz voltou, ao menos como possibilidade real, paz fundada sobre o respeito e a aceitação das mútuas divergências .
Os cristãos souberam descobrir e aceitar a vontade de Deus no meio daquela confusão generalizada. E, por mais estranha que possa parecer, essa aceitação realista das mútuas divergências lançou a base de uma aproximação e uma comunhão muito Mais Intima e real do que aquela que os outros pretendiam atingir, impondo todos a mesma bitola na Maneira de se Viver a fé em Jesus Cristo.
No concílio, os cristãos conservadores de Jerusalém, abrindo mão de suas exigências, como que cortaram o cordão umbilical e permitiram que Cristo de fato nascesse para o mundo todo. Precisamente por causa dessa sua magnanimidade, que certamente não foi fácil, obtiveram a gratidão reconhecida dos cristãos vindos do paganismo. E é dessa gratidão que nasceu, depois, uma das mais bonitas iniciativas de unidade: a grande coleta nas igrejas do mundo pagão em favor dos pobres da comunidade de Jerusalém .
V
Do pluralismo nasce a iniciativa da unidade
Os cristãos de Jerusalém, por aquela sua concessão bastante dolorosa, liberaram a mensagem cristã para o mundo pagão. E do mundo pagão, provavelmente em Corinto, (2 Cor 8,10), nasceu a iniciativa de retribuir o bem recebido (Rom 15,27) .Organizou-se, ali, uma campanha de fraternidade que ganhou a simpatia e a colaboração de todas as comunidades da Galácia, na Ásia Menor (1 Cor 16,1) ; da Macedônia, no norte da Grécia (2 Cor 8,1) e da Acaia, no sul da Grécia (2 Cor 9,2) .Havia até uma certa concorrência entre elas, para ver quem dava mais dinheiro (2 Co.r 9,2) .E foram generosas, apesar da sua pobreza (2 Cor 8,2-3) , pois se fala de uma «soma importante» (2 Cor 8,20) .Foi uma mobilização geral das igrejas pagãs em favor dos irmãos necessitados de Jerusalém. E Paulo deu tudo por esse trabalho.. Tornou-se esmoleiro esperto, para convencer os outros a darem com generosidade (cf 2 Cor cc 8-9) .
Não se deve confundir essa campanha de fraternidade com uma coleta Qualquer. Ela é um sinal eloqüente de que o Espírito Santo nunca é derrotado pelos fatos novos. Ele nunca fica preso nas idéias dos homens. E criador e sabe suscitar coisas novas, quando os homens desanimam por falta de idéias, derrotados pela realidade.
Com efeito, oficializada a divergência entre pagãos e judeus, aceitos os fatos. e reconhecida a realidade, no primeiro concílio, esta mesma realidade nova recém-criada, como sempre acontece, suscitou logo um novo problema, como manter a unidade nessas condições? Mais ainda: os cristãos de Jerusalém, reconhecendo e aceitando os apelos de Deus nos fatos, tiveram que assistir ao lento deslocamento do eixo da Igreja para o mundo pagão. Sabiam que iriam ser uma pequena minoria. Qual o lugar e o futuro deles na Igreja ?
Todos tinham o mesmo Cristo, a mesma fé. o mesmo Pai, o mesmo batismo, o mesmo Espírito Santo (Ef 4.4-6) , mas a vida era pluriforme. Do mesmo tronco estavam nascendo os galhos mais diversos, diversificando-se cada vez mais uns dos outros na medida em que cresciam. Mas nesses galhos, por mais variado.s e diferentes que fossem, corria a mesma seiva que fazia nascer, em todos eles, as mesmas folhas e os mesmos frutos, os frutos da caridade. concretizada nessa ampla campanha de fraternidade. Foi uma iniciativa, ao que tudo indica, espontânea, não imposta (2 Cor 8,3.10) , que uniu as comunidades pagãs mais do que antes e que deu aos irmãos de Jerusalém uma consciência bem maior de pertença à Igreja, bem maior do que antes. A campanha fazia até parte da oficialização do pluralismo existente na Igreja (Gál 2,10) .Era uma forma de concretizar as decisões do concílio .
A campanha não era tanto para dar a impressão de unidade aos outros, pois não havia a assistência do mundo, para aclamar as iniciativas dos cristãos. Não era para servir de fachada que escondesse a mais profunda desunião. Pelo contrário, ela nasceu precisamente da aceitação realista das divergências; cresceu do próprio pluralismo. Ê a resposta agradecida dos cristãos pagãos à magnanimidade dos colegas de Jerusalém, aos quais deviam a liberdade de viverem a sua fé, conforme a sua própria inspiração e realidade (cf Rom 15,26-27) .A desunião fora vencida, porque souberam encontrar o sentido da unidade no nível mais profundo e sólido do pluralismo, onde o amor pôde dar prova da sua criatividade . Tal campanha teria sido impossível antes do concílio de Jerusalém, quando eles ainda estavam brigando em torno de idéias, uns querendo impor aos outros a sua opinião. Nesse casa, a campanha teria sido um instrumento a mais, para um grupo poder dominar o outro.
Agora, aceita a diversidade e partindo dela, a unidade pôde florescer e cada flor pôde desabrochar no seu próprio campo, com o seu próprio adubo, e mostrar as suas próprias qualidades e cores, colocadas na vitrina da Igreja para alegrar a vista de todos os irmãos. A campanha mostrou até onde ia o compromisso de cada um com Cristo e com os irmãos. Era o termômetro da sua fé, esperança e caridade. Não era uma forma barata de esmola, dada para tranqüilizar a própria consciência .



VII
Conclusão
Nem todos os judeus convertidos conseguiram ter essa visão. Não compreenderam a abertura imensa do concílio, e continuaram, mesmo depois, a defender a sua opinião., molestando Paulo o mais possível. Mas quem vence uma guerra, já não se incomoda com uma pequena escaramuça. Essas discussões, por mais dolorosas que fossem, não conseguiram tirar de Paulo o profundo sentimento de gratidão. Êle sabia distinguir entre o que era iniciativa de alguns poucos, por mais perigosa e desagradável que fosse, e o que era iniciativa da Igreja .
Tudo isso já se passou há muito tempo e não volta mais. Mas hoje existe na Igreja uma situação de conflito que, ao que tudo indica, também, é sintoma de uma divergência profunda sobre o que vem a ser o evangelho hoje. Será que hoje não estamos impedindo, como outrora, o nascimento de Cristo para o mundo, mantendo-o preso em esquemas e modos de pensar e de viver que têm pouco a ver com a fé ? Será que não é hc.ra de darmos uma prova de magnanimidade, como fizeram os cristãos de Jerusalém? Será que não deveríamos ser realistas e aceitar o pluralismo na maneira de se viver a fé, a mesma fé, em Jesus Cristo ? Ou será medo de enfrentar a realidade e as perseguições ?

O JULGAMENTO DESTE MUNDO


Lemos no Evangelho de São João o que disse Jesus: “É agora o julgamento deste mundo” ( Jo 12,31). Deixou também claro: “Se alguém me quer servir, siga-me e onde eu estou estará também o meu servo” (Jó 12 26). No fim dos tempos, está claro nas palavras de Cristo, Ele virá julgar os vivos e os mortos e Ele deixou também evidente que haverá uma recompensa eterna para os bons e um castigo perene para quem não observou os Mandamentos. Eis as palavras textuais do divino Redentor: "E estes irão para o castigo eterno, e os justos, para a vida eterna" (Mt 25,46). Há passagens na Bíblia que muitos gostariam de apagar e eis aí a demonstração de uma fé vacilante, frouxa, anêmica. Seja a religião culto esplendoroso da divindade, sem leis que se oponham às veleidades das paixões tal o ideal vazio de muitos cristãos. Claríssimo este trecho do Evangelho: “Um jovem aproximou-se de Jesus e lhe perguntou: Mestre, que devo fazer de bom para ter a vida eterna? Disse-lhe Jesus: Por que me perguntas a respeito do que se deve fazer de bom? Só Deus é bom. Se queres entrar na vida, observa os mandamentos. Quais?, perguntou ele. Jesus respondeu: Não matarás, não cometerás adultério, não furtarás, não dirás falso testemunho, honra teu pai e tua mãe, amarás teu próximo como a ti mesmo (Mt 19,16-19). Portanto, quem não observa tais mandamentos não entrará na vida eterna, estando, em conseqüência, condenado, evidentemente se não se arrepender. Tudo isto confirma as palavras de Cristo acima recordadas: “É agora o julgamento deste mundo”. Adite-se que, quer se queira, quer não, a cada passo Deus, ser onisciente, conhecendo tudo, julga se são bons ou maus os pensamentos de cada um. Este é um dos pontos chaves da Bíblia. Está no profeta Jeremias que Ele “sonda os rins e os corações” (Jr 11,20). No salmo se acha claro: "A palavra ainda me não chegou à língua, e já, Senhor, a conheceis toda" (Sl 138,4). O julgamento não é tanto uma sentença divina, mas sim uma revelação do segredo dos corações humanos. Isto convida então a todos à conversão, uma vez que Deus julga cada um segundo suas próprias obras, seus pensamentos, suas intenções. Para os justos não há condenação. Existe julgamento para o mundo mau e tal foi a missão de Cristo: livrar os que O seguem das garras do maligno. Eis por que tem uma importância capital na vida do cristão o diário exame de sua consciência. Esta estabelece limites à liberdade em razão exatamente da presença divina que tudo vê. O critério supremo são os mandamentos, dado que desprezar gravemente um deles é se colocar em condição de condenação. O julgamento de Deus tem por matéria não a ciência do bem e do mal, mas a sua prática. A obra intencionada pelo Decálogo está inscrita nos corações e na consciência de cada um e oferece elementos para o julgamento próprio. São os juízos internos que alternadamente acusam ou não o discípulo do Redentor. É neste sentido que São Paulo diz que Deus julga as ações secretas dos homens, por Jesus Cristo (Rm 2,16). É, de fato, inevitável o diálogo com o Ser Supremo, dado que a consciência de cada um reage conforme o projeto divino. Aderir a este projeto é estar com a consciência em paz. O remorso da consciência é um ótimo sintoma, pois leva à postura salvífica do arrependimento. Entretanto, a pureza de intenção evita que se pratique o mal e Jesus advertiu: “É do coração que provêm os maus pensamentos, os homicídios, os adultérios, as impurezas, os furtos, os falsos testemunhos, as calúnias” (Mt 15, 19). Aliás, foi neste sentido que Jesus também ensinou: “O olho é a lâmpada do corpo. Se teu olho é são, todo o corpo será bem iluminado; se, porém, estiver em mau estado, o teu corpo estará em trevas. Vê, pois, que a luz que está em ti não sejam trevas” (Lc 11, 35-36). Em síntese, o julgamento do mundo se dá em função da negação do Filho de Deus; o julgamento pessoal ocorre a cada ação praticada

SENHOR EU NÃO SOU DIGNO


O Dicionário diz que digno é alguém merecedor, honrado, capaz, confiável, apto, apropriado, adequado, etc. Não repetiria algo que o leitor certamente já sabe, não fossem tantos os sinônimos para uma única palavra. Além deles, há os derivativos, tais como dignidade, dignificado, dignitário, digníssimo. Aqui entra a questão, ou seja, seríamos merecedores desses títulos e do uso dessa palavra?
Coloco-a num confronto com a relação não social, nem pessoal ou profissional, mas com sua essência humana, a dignidade da vida. Todo ser humano possui direito a uma vida digna. Todo filho de Deus merece respeito.
Vai daí que o conceito de dignidade oscila de pessoa para pessoa, dança conforme a música, pois acima do respeito e da prática está o individualismo e seus interesses pessoais. Há muitos digníssimos senhores sem dignidade alguma. Há certos apropriados que só sabem apropriar-se. Capacitados por falsos diplomas ou méritos pessoais sem mérito algum, que vivem de aparências, incapacitados em plenitude, sem os dons que pensam ou dizem merecer... E assim por diante.
Conhecemos bem essas situações. Autoridades sem unção, profissionais de fachada, doutores por vaidade, médicos que nada curam, pastores do rebanho de suas reses (nunca de suas rezas), padres por acaso... Nenhuma categoria profissional ou social se safa desses usurpadores, que desonram a classe à qual pertencem.
Por outro lado, há os verdadeiros merecedores. Curiosamente, a maioria destes se acha indigna, porque para eles a perfeição é uma busca constante, sem fronteiras, sem limites. Não aceitam elogios. Não se ufanam do que fazem. Não se cansam de aprimorar seus feitos, buscar mais e mais conhecimentos, novos procedimentos, novas condutas. Citá-los agora seria incorrer numa injustiça, pois incontáveis são seus nomes. Um desses certamente você conhece bem. Fica, pois, ao seu critério a escolha desses exemplos. É sempre salutar nos alimentarmos com referenciais construtivos, mais ainda quando são capazes de nortear nossas vidas, nossas condutas.
Algo ainda me incomoda nesta reflexão. Por onde anda nossa dignidade diante de Deus? Não voltarei ao negativismo puro e simples, pois que tal visão nada constrói. Apenas questiono, já que são raros esses momentos de auto análise, busca de novos rumos. A Bíblia – nosso dicionário – nos fala poeticamente desses questionamentos humanos. “Senhor, vós me perscrutais e me conheceis. Sabeis tudo de mim, quando me sento ou me levanto. De longe penetrais meus pensamentos, quando ando e quando repouso, vós me vedes, observais todos os meus passos...” (Sl 138, 1-3). Seria interessante se você pude ler esse salmo em sua totalidade. Mas o essencial está dito: Deus nos conhece por dentro e por fora. E nos quer dignos diante dele.
Porém, não temos o hábito de parar por um momento, nos confrontarmos, sentir sua presença, escutar suas palavras, praticar seus ensinamentos, buscar a perfeição através da observância de suas leis. Dizem os Evangelhos que certo centurião romano, rico, influente em sua comunidade, respeitado por todos, foi atraído pela mensagem do Cristo. Vendo seus milagres, não pediu para si, mas para um servo doente, que muito sofria. Pensou primeiro no outro, externando sua solidariedade humana, sua própria dignidade. Deixou-nos uma grande lição de humildade, que hoje repetimos na perspectiva da comunhão eucarística: “Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha casa. Dizei uma só palavra e meu servo será curado” (Mt, 8,8).
Donde lhe veio tamanha humildade diante dos poderes divinos de Jesus? Diante de Deus somos realmente indignos. Mesmo assim Ele nos oferece a cura, perdoando-nos sempre e nos reabilitando com sua graça e poder. Isso nos basta. A graça e o poder de Deus é que nos fazem dignos de qualquer título, até de cristãos.