FICAMOS ALEGRES COM SUA VISITA

ESPERAMOS, QUE COM A GRAÇA SANTIFICANTE DO ESPIRITO SANTO, E COM O DERRAMAR DE SEU AMOR, POSSAMOS ATRAVÉS DESTE HUMILDE CANAL SER VEÍCULO DA PALAVRA E DO AMOR DE DEUS, NÃO IMPORTA SE ES GREGO, ROMANO OU JUDEU A NOSSA PEDRA FUNDAMENTAL CHAMA-SE CRISTO JESUS E TODOS SOMOS TIJOLOS PARA EDIFICACÃO DESTA IGREJA QUE FAZ O SEU EXODO PARA O CÉU. PAZ E BEM

AGRADECIMENTO

AGRADECEMOS AOS NOSSOS IRMÃOS E LEITORES, POR MAIS ESTE OBJETIVO ATINGIDO, É A PALAVRA DE CRISTO SEMEADA EM MILHARES DE CORAÇÕES. PAZ E BEM

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

AMOR DE SÃO JOSEMARIA ESCRIVÃ A IGREJA


(Apresentação do livro Amar a Igreja de São Josemaria Escrivá. Ed. Quadrante, 2004)
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Este livro que agora oferecemos ao leitor é um ato de fé e de amor. Mais exatamente, é um ato de fé amorosa, surgido no meio da dor.

As duas homilias sobre a Igreja e a homilia sobre o sacerdócio, que aqui se reúnem, foram pronunciadas por São Josemaria Escrivá em 1972 e 1973. Como é bem conhecido, os anos posteriores ao Concílio Vaticano II − a magna assembléia da Igreja Católica no século XX, fonte de imensas esperanças − viram surgir, ao lado de frutos esplêndidos de renovação, de santidade e de apostolado, uma onda crescente de interpretações errôneas e aplicações deturpadas do Concílio, que semearam deplorável confusão entre os fiéis católicos, e produziram defecções e crises dolorosas em amplos setores do clero e dos religiosos, e desorientação em incontáveis leigos. Como alguém dizia, de modo rudemente expressivo, ao “autêntico pós-Concílio” parecia querer sobrepor-se, estrangulando-o, um “falso pós-Concílio”. De fato, nesses anos 70, a Igreja, em todos os seus níveis, parecia varrida por um furacão de loucura anárquica, cujas seqüelas ainda se deixam sentir em alguns ambientes atuais.

É por isso que o Papa Paulo VI, que encerrara com tão felizes expectativas o Concílio, em 8 de dezembro de 1965, se mostrava desolado. Lamentava, com angústia visível, a que chamava “falsa e abusiva interpretação do Concílio”, que considerava como uma verdadeira “ruptura” com a Igreja, como uma tentativa − dizia − de criação de uma “Igreja nova, quase reinventada de dentro da sua constituição, tanto no dogma, como na moral e no direito” (Alocuções, 1970). Em momentos de máxima preocupação, Paulo VI chegou a falar em “autodestruição da Igreja” e a declarar, perante milhares de fiéis, que “a fumaça de Satanás se tinha introduzido dentro da Igreja”.

Como é natural, todos os católicos fiéis à Igreja e ao Papa participavam dessas apreensões e sofriam com os sinais inequívocos da crise. A São Josemaria Escrivá, essa situação lamentável, que tanto mal causava ao clero e à generalidade dos fiéis, fazia-o padecer indizivelmente. E foi precisamente nesses momentos, em que o desânimo ameaçava tomar conta de muitos, que ele, cheio de amor e esperança, se sentiu movido por Deus a lançar-se, até ao limite das suas energias, num trabalho incansável de pregação, de catequese -milhares de horas ante milhares de pessoas −, por numerosos países de Europa e América, tornando-se pregoeiro alegre e esperançoso da doutrina católica, fazendo-se eco fiel dos ensinamentos do Santo Padre, e contagiando milhares de homens e mulheres com a sua fé e a sua fidelidade inquebrantáveis.

´Dói-me a Igreja”- confidenciava São Josemaria. Sim, doía-lhe, e muito − como declarava −, ver que “o clamor da confusão se levanta por todos os lados, e com estrondo renascem todos os erros que houve ao longo dos séculos [...]. Rejeita-se a doutrina dos mandamentos da Lei de Deus e da Igreja, tergiversa-se o conteúdo das bem-aventuranças dando-lhe um significado político-social, e quem se esforça por ser humilde, manso e limpo de coração é tratado como um ignorante ou atávico defensor de coisas passadas. Não se suporta o jugo da castidade e inventam-se mil maneiras de ludibriar os preceitos divinos de Cristo [...}. Fabrica-se uma imagem da Igreja que não tem a menor relação com a que Cristo fundou” (Homilia O fim sobrenatural da Igreja).

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Mas, por cima dessas nuvens de confusão, como já víamos, São Josemaria Escrivá, seguindo o que sempre fora um lema do seu trabalho sacerdotal − “afogar o mal na abundância de bem” − consumiu todas as suas forças, naqueles anos 70 (até a sua morte em 1975), num labor positivo, gozoso, vibrante, de catequese: de aprofundamento nas verdades da fé católica tal como as ensinou e as ensina o Magistério da Igreja; no tesouro divino dos Sacramentos, especialmente da Eucaristia e da Penitência; e na divina estrada dos Mandamentos, sinalizações de Deus para a conduta dos homens, a caminho do Céu. Ao mesmo tempo, apontando alto, como fizera sempre desde que Deus lhe mostrou a sua missão de fundar o Opus Dei, fazia erguer os corações de seus ouvintes para as mais elevadas metas da santidade e do apostolado no meio do mundo; e frisava com alegria que o Concílio Vaticano II acabava de proclamar solenemente, olhando especialmente para os leigos, a validade desses ideais, tão caras para ele.

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“Amar a Igreja”. Impressiona ler, nessas três homilias, a clareza teológica, lúcida e incisiva, com que São Josemaria expõe a fé católica sobre o mistério da Igreja, fé que é o fundamento do amor sobrenatural à Esposa de Cristo.

Leiam-se, por exemplo, esses trechos da homilia Lealdade à Igreja: “A Igreja foi querida e fundada por Cristo, que cumpre assim a vontade do Pai; a Esposa do Filho está assistida pelo Espírito Santo. A Igreja é a obra da Santíssima Trindade; é Santa e Mãe, a nossa Santa Mãe Igreja [...]”. Uma belíssima visão trinitária da Igreja, que incita a meditar.

Há, no ensinamento de Josemaria Escrivá, um forte eco da doutrina de São Paulo − recordada pelo Concílio na Constituição Lúmen Gentium (n. 7) − sobre a Igreja como “Corpo de Cristo”, cuja cabeça é Jesus glorificado, cujos membros são todos os batizados, e cuja “alma” é o Espírito Santo, que reparte a diversidade dos seus dons entre todos os fiéis. “Vós sois o corpo de Cristo − escrevia o Apóstolo − e cada um, de sua parte, é um dos seus membros [...]. Porque, como o corpo é um todo, tendo muitos membros, e todos os membros do corpo, embora muitos, formam um só corpo, assim também é Cristo” (cfr. I Cor 12, 4. 12. 27).

Essa fé permitia-lhe dizer, sem hesitações: “A Igreja é nem mais nem menos Cristo presente entre nós, Deus que vem até a humanidade para salvá-la” (É Cristo que passa, n. 131). Temos aqui a mesma convicção singela que levava Santa Joana d’Arc a afirmar, em resposta a uma pergunta capciosa dos seus juízes: “Quanto à Jesus Cristo e à Igreja, parece-me que são uma só coisa e que não se deve fazer objeções a isso” (Actes du procès).

Bem sabia Mons. Escrivá que, na Igreja, junto ao elemento divino há o elemento humano, com toda a sua carga de misérias. “A ninguém passa despercebida a evidência dessa parte humana − escreve −. A Igreja, neste mundo, está composta por homens e para homens. Ora, falar de homem é falar de liberdade, da possibilidade de grandezas e de coisas mesquinhas, de heroísmos e de claudicações”. Mas é preciso considerar que, “mesmo no caso de as fraquezas superarem numericamente as valentias, ficaria ainda esta realidade mística − clara, inegável, embora não a percebamos com os sentidos −, que é o Corpo de Cristo, o próprio Nosso Senhor, a ação do Espírito Santo, a presença amorosa do Pai” (Homilia O fim sobrenatural da Igreja).

Tinha bem presente o magnífica afirmação que encabeça a Constituição sobre a Igreja, do Concílio Vaticano II: “A Igreja é em Cristo como que sacramento, isto é, sinal e instrumento da união íntima com Deus e da unidade de todo o gênero humano (Const. Lumen gentium, n. 1). Assim como nos sete Sacramentos o próprio Deus – Cristo, pelo Espírito Santo − age e santifica através de elementos materiais, como o pão e o vinho da Eucaristia, a água do batismo, o óleo da Confirmação..., de modo análogo, Deus age por meio do elemento humano, pecador e falível, da Igreja, e serve-se dele como instrumento vivo de Cristo Sacerdote.

A Igreja é a Mãe que nos gera, ensina, alimenta, acompanha, purifica e conduz até o Céu. À vezes, pode dar a impressão − pelos pecados de seus membros − de ser como uma daquelas pobres mulheres corroídas pela lepra, que a Beata Teresa de Calcutá assistia ao darem à luz; e a Madre sorria ao ver que, daquele corpo desfeito, nascia uma criança sadia, pura, bela. A Igreja é Mãe que, em seus membros, ao lado de exemplos heróicos de santidade, ostenta muitas vezes a “lepra” do pecado, da fraqueza humana, do escândalo; mas é a Mãe que Deus nos deu, e a doutrina e a vida que nos transmite são e serão sempre puras, belas, divinas. Temos, pois, toda a razão para exclamar, com o poeta Paul Claudel, “Seja louvada para sempre esta grande Mãe majestosa, sobre cujos joelhos eu tenho aprendido tudo”.

Uma gratidão com essa levava São Josemaria a escrever: “O mistério da santidade da Igreja..., exclui todo e qualquer pensamento de suspeita ou de dúvida sobre a beleza da nossa Mãe [...]. A nossa Mãe é Santa, porque nasceu pura e continuará sem mácula por toda a eternidade. Se, por vezes, não soubermos descobrir o seu rosto formoso, limpemos nós os olhos; se notamos que a sua voz não nos agrada, tiremos dos nossos ouvidos a dureza que nos impede ouvir, no seu tom, os assobios do Pastor amoroso [...]. Tu és santa, Igreja, minha Mãe, porque foste fundada pelo Filho de Deus, Santo; és santa porque assim o dispôs o Pai, fonte de toda a santidade; és santa porque te assiste o Espírito Santo” (Homilia Lealdade à Igreja).

Ao amor à Igreja, São Josemaria unia inseparavelmente − na sua incansável pregação − o amor a todas as verdades da fé católica, que não mudam nem murcham; aos Sacramentos, tão combatidos naquela época, que foi uma verdadeira “noite de sonos e traições”; ao sacerdócio, ao qual dedica uma homilia empolgante − Sacerdote para a eternidade −, densa em doutrina e piedade; e o amor ao Papa, pelo qual oferecia diariamente a sua vida, “e mil vidas que tivesse”. E, em todos os temas, a doutrina vem impregnada, como pelas águas de uma fonte límpida, da Palavra da Sagrada Escritura, do Magistério pontifício e conciliar, e dos ensinamentos perenemente válidos da Patrística. São coisas que o leitor poderá apreciar nestas páginas.

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“Eu amo a Igreja com toda a minha alma − confidenciava São Josemaria. no período final de sua vida −; e tenho queimado a minha juventude, a minha maturidade e a minha velhice para servi-la. Não o digo com pena, pois tornaria a fazê-lo se vivesse mil vezes” (Andrés Vázquez de Prada, O Fundador do Opus Dei, vol. III, Quadrante, São Paulo 2004, pág. 548).

A catequese de Mons. Escrivá sobre a Igreja, sobre a sua doutrina, sobre os seus Sacramentos, sobre a entrega inefável de Cristo em seu máximo ato de amor – o Sacrifício da Cruz − em cada Missa que se celebra, sobre a grandeza e santidade do sacerdócio..., naqueles momentos críticos dos anos 70, levantou ânimos decaídos, acendeu fervores apagados, dissipou dúvidas dolorosas, extinguiu críticas estéreis, alentou ideais de entrega e de serviço a Deus e à Igreja, inflamou no amor que procede da autêntica fé católica inúmeros corações, conduzindo-os a uma paz e uma alegria que lhes havia sido toldada. Queira Deus que a leitura destas homilias, que, decorridos mais de trinta anos, continuam a ser de uma atualidade assombrosa, produza hoje os mesmos frutos benéficos em muitos corações.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

A MISSÃO DO LEIGO NA IGREJA E NO MUNDO


Nesta palestra, vamos focalizar alguns pontos fundamentais da doutrina católica – e, dentro dela, dos ensinamentos de São Josemaria Escrivá –, sobre a vocação e missão dos leigos na Igreja e no mundo.

Como ponto de partida, procuraremos expor alguns critérios básicos, claros, da doutri-na do Magistério da Igreja sobre a vocação e missão específica dos fiéis leigos – conceitos nem sempre bem compreendidos, quer na doutrina quer na prática –, e veremos, ao mesmo tempo, como os ensinamentos do Fundador do Opus Dei iluminam essa doutrina;

Frisaremos depois também o fato de que, nas circunstâncias do mundo atual, o fiel cum-primento da missão "específica" dos fiéis leigos se torna cada vez mais importante e urgente.
I. A vocação e missão específica dos leigos:


1.1 A Constituição dogmática Lumen gentium, documento central do Concílio Vaticano II, diz, no n. 31: "É específico dos leigos, por sua própria vocação, procurar o Reino de Deus e-xercendo funções temporais [os trabalhos profissionais, a participação em organizações profis-sionais, culturais, empresariais, operárias, políticas, etc.; em suma, a atuação em tarefas e ambi-entes que não são da Igreja, mas do mundo, laicais] e ordenando-as segundo Deus. Vivem no mundo, i. é., no meio de todas e cada uma das atividades e profissões, e nas circunstâncias or-dinárias da vida familiar e social, as quais como que tecem a sua existência. Aí os chama Deus a contribuírem, do interior, à maneira de fermento, para a santificação do mundo, através de sua própria função [...]. A eles, portanto, compete muito especialmente esclarecer e ordenar todas as coisas temporais, com as quais estão intimamente comprometidos, de tal maneira que sempre se realizem segundo o espírito de Cristo, se desenvolvam e louvem o Criador e o Redentor". Estas duas últimas referências a Deus Criador e Deus Redentor, como veremos mais adiante, ajudam a compreender as perspectivas da missão dos leigos.

A mesma doutrina é ensinada – citando esse texto do Concílio – pelo Catecismo da Igreja Católica (Cf. nn. 898-899); e também pela Exortação Apostólica de João Paulo II sobre a vocação e missão dos leigos na Igreja e no mundo, Christifideles laici, de 30/12/1998, nn. 15, 55, etc. (O Ca-tecismo, a Exortação e os demais documentos pontifícios encontram-se à venda, em forma de folhetos, em todas as livrarias católicas, e podem ser achados no site do Vaticano: www.vatican.va).

1.2 Como é lógico, também faz parte essencial da missão dos leigos casados – que são a maioria – santificar a vida matrimonial e familiar: "nela – diz a Constituição Lumen gentium, n. 35 – têm os cônjuges a própria vocação para serem, um para o outro e para os filhos, testemu-nhas da fé e do amor de Cristo".

1.3 Naturalmente isso não exclui o fato de que, ”quando a necessidade ou a utilidade da Igreja o pedir, os pastores podem, segundo as normas estabelecidas pelo direito universal, con-fiar aos fiéis leigos certos ofícios e certas funções que, embora ligadas ao seu próprio ministério de pastores, não exigem contudo o caráter da Ordem [por exemplo, ministros da Comunhão, membros da Pastoral dos enfermos, responsáveis pela equipe de Liturgia, catequistas, etc.] . Todavia, o exercício de semelhante tarefa não transforma o fiel leigo em pastor [...]. A tarefa que se exerce como suplente recebe a sua legitimidade, formal e imediatamente, da delegação oficial que lhe dão os pastores" (Exort. Christifideles laici, n. 23).

1.4 Esse texto patenteia que a ação dos leigos nas estruturas eclesiásticas (diocese, paró-quia, uma determinada pastoral, etc.) não é o modo ordinário de viver a sua vocação e missão, mas um modo extraordinário, muito louvável e em muitos casos absolutamente necessário, em-bora não seja o que a Const. Lúmen gentium chama o específico dos leigos, ou seja, que deles é próprio e que só eles podem realizar.

1.5 A missão que compete propriamente ao leigo enquanto tal, por sua vocação específica, não lhe vem de nenhuma delegação por parte dos pastores da Igreja, mas diretamente de Deus em virtude da sua incorporação a Cristo pelo Batismo e a Crisma . A Const. Lumen Gentium, n. 33, ao falar da missão específica dos leigos no mundo, nas estruturas da sociedade, afirma: "A este apostolado são destinados todos [os leigos] pelo próprio Senhor ao receberem o Batismo e a Confirmação".

1.6 Neste mesmo sentido, São Josemaria Escrivá, dizia: “O modo específico de os leigos contribuírem para a santidade e o apostolado da Igreja é a ação livre e responsável no seio das estruturas temporais, a elas levando o fermento da mensagem cristã. O testemunho de vida cris-tã, a palavra que ilumina em nome de Deus e a ação responsável, a serviço dos outros e como contributo para a solução dos problemas comuns, são outras tantas manifestações dessa presen-ça através das qual o simples cristão cumpre a missão para a qual Deus o chamou”


II. Colaboradores de Deus Criador
2.1 Recordemos palavras já citadas da Const. Lumen Gentium, que têm um conte-údo teológico denso. Diz-se, no n. 31, que compete aos leigos, "muito especialmente, esclarecer e ordenar todas as coisas temporais, com as quais estão intimamente comprometidos, de tal ma-neira que sempre se realizem segundo o espírito de Cristo, se desenvolvam e louvem o Criador e o Redentor". Comecemos considerando a colaboração com Deus Criador.
2.2 O próprio relato da Criação transmite luzes claras sobre os desígnios de Deus. O Senhor Deus tomou o homem e o colocou no jardim do Éden, para o cultivar ["para que trabalhasse: ut operaretur"] e guardar ["et custodiret illum"] (Gên. 2, 15). Além disso, depois de criar o ser humano –homem e mulher Ele os criou –, Deus os abençoou e lhes disse: "Sede fecundos e multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a (Gên, 1,27-28). Há, pois, como que uma dupla missão confiada por Deus ao homem no mundo: a família, por um lado e, por outro, o desenvolvimento inteligente das potencialidades colocadas por Deus na obra da criação, potencialidades que o homem deve desenvolver (cultivar) , e não deteriorar (guardar). Dois aspectos importantes, pois, da missão que os leigos realizam como colaboradores de Deus no plano da Criação. Isto significa que a institui-ção do matrimônio e da família , bem como o trabalho, a pesquisa, o desenvolvimento, a ciência, a técnica, a organização da sociedade, etc ... não são realidades inteiramente “autônomas”, in-dependentes da Vontade e dos desígnios de Deus Criador, mas são queridas por Ele como parte do plano eterno do seu Amor e da sua Sabedoria.

2.3 Como acabamos de ver, o trabalho, as ciências, as artes, a técnica, enfim, to-das as atividades humanas honestas, grandes ou pequenas, são “tarefas” que fazem parte da missão dos seres humanos queridos por Deus, criados à sua imagem e semelhança, e chamados – por “vocação essencial”, poderíamos dizer, por serem o que são – a colaborar com Ele no de-senvolvimento do plano divino da criação. Nada, na criação, surgiu por acaso ou como fruto de leis e mecanismos cegos da matéria. Tudo está, digamos assim, “planejado” eternamente por Deus, com uma finalidade: dar glória a Deus, manifestando a grandeza e beleza do seu Amor, e levar os homens à plenitude da felicidade eterna com a Trindade.

2.4 Por isso, as obras do engenho e do esforço humano só são autênticas e têm sentido se sintonizam com o desígnio da sabedoria eterna de Deus, desígnio a que nós chama-mos Lei divina (positiva – p.e. os Dez Mandamentos – , ou natural). Conhecemos essa “Lei”, quer por revelação, pela Sagrada Escritura (Lei positiva), revelação cujo depósito e interpretação Deus deixou nas mãos da Igreja; quer por captá-la racionalmente no ser, no modo de ser, das coisas criadas (Lei natutal: cf. Rom 1, 19-20). Por isso, podemos “ordenar segundo Deus”, segun-do a sua sabedoria e vontade as realidades do mundo, com lembra o texto citado da Const. Lú-men Gentium, n. 31. E assim se compreende também a desordem radical que introduz no mun-do o pecado, a rebeldia contra a Lei divina, a pretensão do homem de ser “deus” (Cf. Gen 3, 5) e de desenvolver a si mesmo e à criação toda à margem de Deus ou contra Deus (o que hoje se observa em tantos campos, desde a bioética até a política) .


2.5 Da mesma maneira, João Paulo II , referindo-se à família na Exortação Apostó-lica Familiaris consortio, de 22/11/1981, frisa que "No plano de Deus Criador e Redentor a famí-lia descobre não só a sua «identidade», o que «é», mas também a sua «missão» [...]. Voltar ao «princípio» do gesto criativo de Deus é então uma necessidade para a família, se se quiser co-nhecer e realizar segundo a verdade interior do seu ser..." (n. 17). A família "por ser a célula primeira e vital da sociedade" (n. 42), "constitui o lugar nativo e o instrumento mais eficaz da humanização e personalização da sociedade" (n. 43). Por isso, quando a família é desarraigada e independizada do plano de Deus, toda a sociedade se desagrega e desconjunta.

2.6 Como vemos, estamos perante questões de grande transcendência e enor-memente atuais: hoje, o materialismo laicista pretendede focalizar todas as coisas criadas (desde o corpo humano, a sexualidade, os embriões e fetos, a biologia, as doenças terminais, as técnicas diversas que operam sobre a matéria viva, até à psicologia, o direito, a sociologia, etc.) exclusi-vamente como realidades materiais e autônomas, totalmente desvinculadas do Criador e das suas Leis; tudo fica entregue apenas à liberdade sem rumo, aos consensos momentâneos de vonta-des, ao interesse egoísta e ao prazer do homem, até ao ponto de se considerar qualquer perspec-tiva divina, nessas matérias como uma como intromissão inaceitável da religião, da Igreja, dos crentes no mundo e na sociedade.

2.7 Naturalmente, em face disso, o cristão não pode adotar posições de encolhimento ou pessimismo. São Josemaria tinha e transmitia o otimismo da fé: “Tenho-o ensinado constante-mente com palavras da Escritura Santa: o mundo não é ruim, porque saiu das mão de Deus, porque é criatura dEle, porque Javé olhou para ele e viu que era bom (Cfr. Gên, I, 7 e ss.). Nós, os homens, é que o fazemos ruim e feio, com nossos pecados e nossas infidelidades. Não duvi-dem, meus filhos; qualquer modo de evasão das honestas realidades diárias é para os homens e mulheres do mundo coisa oposta à vontade de Deus.
“Pelo contrário, devem compreende agora - com uma nova clareza - que Deus os chama a servi-Lo em e a partir das tarefas civis, materiais, seculares da vida humana. Deus nos espera cada dia: no laboratório, na sala de operações de um hospital, no quartel, na cátedra universitá-ria, na fábrica, na oficina, no campo, no seio do lar e em todo o imenso panorama do trabalho”

2.7 Não precisa fazer muitas considerações para compreender que a responsabi-lidade dos leigos católicos é muito grande. Víamos o que diz o Gênesis – et custodiret illum –, que Deus confiou a Criação ao homem para que a guardasse. A primeira condição para “guar-dar”, para zelar pela criação de Deus, é esforçar-nos para que o desenvolvimento do homem, do mundo e da sociedade decorra em harmonia com a Lei de Deus, ou seja, de acordo com a sua verdade intrínseca e a sua finalidade essencial. Essa é a primeira, a primeiríssima “ecologia”.

2.8 Essas considerações fazem ver, com nitidez, a clarividência e a importância do que ensinava Mons. Escrivá:

– “A específica participação do leigo na missão da Igreja consiste, precisamente, em san-tificar ab intra [de dentro] – de maneira imediata e direta – as realidades seculares, a ordem temporal, o mundo” .
– “Aos leigos, que trabalham imersos em todas as circunstâncias e estruturas próprias da vida secular, corresponde de forma específica a tarefa, imediata e direta, de ordenar essas rea-lidades temporais à luz dos princípios doutrinais enunciados pelo Magistério; mas atuando, ao mesmo tempo, com a necessária autonomia pessoal perante as decisões concretas que tenham que tomar [ou seja, como cidadãos, não como auxiliares ou “delegados” da Hierarquia] na sua vida social, familiar, política, cultural, etc.”

2.9 Como dizia alguém, ironizando, o católico, o cristão responsável, não pode contemplar o panorama atual do mundo só com um cântico piedoso na boca e uma medalha no pescoço. É preciso assumir as responsabilidades, sair a essa “luta” de paz, com fé, com decisão e espírito positivo –cada qual com os meios honestos ao seu alcance – para defender "o esplendor da verdade" e do “bem”. Para isso, é precisa uma sólida formação (maior que em outras épocas de valores menos controvertidos), uma vida espiritual séria, e a generosidade de não omitir-se, mas de agir, de comprometer-se, de fazer o possível para viver, defender, “guardar” e divulgar os valores autênticos em organismos de classe, na vida pública, no mundo do ensino, na mídia, em publicações bem orientadas, na Internet, etc. Assim seremos colaboradores de Deus Criador.


III. Colaboradores de Deus Redentor

3.1 Até agora, vimos, de modo geral, a função dos leigos no mundo – campo es-pecífico onde Deus lhes pede exercer a sua missão –, e focalizamos especialmente um primeiro aspecto: a sua missão de colaborar com Deus Criador. Neste item, vamos ver alguns aspectos principais da sua colaboração com Deus Redentor, colaboração que outra coisa não é senão o apostolado que os leigos devem realizar no mundo, no ambiente secular, nas estruturas da socie-dade, a fim de aproximar parentes, colegas, amigos, todos os que puderem, da fé e da vida cristã, despertando nos já batizados a consciência da sua vocação à santidade e ao apostolado.

3.2 Na Exortação Apostólica Christifideles laici, de 30/12/1988, sobre a vocação e missão dos leigos na Igreja e no mundo, o Papa João Paulo II – glosando ensinamentos do Con-cílio Vaticano II e dos Papas anteriores – falava de que “é urgente refazer em toda a parte o te-cido cristão da sociedade humana [...]. Ora, os fiéis leigos [...] estão plenamente envolvidos nes-sa tarefa da Igreja. Pertence-lhes, em particular, dar testemunho de como a fé cristã seja a única resposta válida para os problemas e as esperanças que a vida põe a cada homem e a cada socie-dade” (n. 34).

3.4 Como farão isso? Como conseguirão isso? João Paulo II, Na Carta Apostólica Novo Millennio Ineunte, de 6/1/2001, n. 31, diz: “Agradeço ao Senhor por me ter concedido, nes-tes anos, beatificar e canonizar muitos cristãos, entre os quais numerosos leigos que se santifica-ram nas condições ordinárias da vida. É hora de propor de novo a todos, com convicção, essa “medida alta”da vida cristã ordinária: toda a vida da comunidade eclesial e das famílias cristãs de-ve apontar nessa direção [o Papa acaba de citar as palavras de Cristo: “sede perfeitos, como é perfeito vosso Pai celeste”: Mt 5, 48].

3.5 A primeira exigência para que os leigos realizem um apostolado eficaz, como instrumentos da Redenção operada por Cristo, é, portanto, a procura séria da santidade. Esta foi uma intuição decisiva que Deus colocou na alma do Fundador do Opus Dei, para fazer-lhe compreender o que Ele queria da Obra: “Um segredo. – Um segredo em voz alta: estas crises mundiais são crises de santos. Deus quer um punhado de homens «seus» em cada atividade humana. – Depois... «pax Christi in regno Christi» – a paz de Cristo no reino de Cristo” .

3.6 A visão de fé, faz ver que a “alma de todo o apostolado” deve ser a oração e a mortificação, os meios sobrenaturais, que serão como que a seiva da ação. “Elevar o mundo a Deus – dizia o Papa João Paulo II em 6/10/2002, na homilia da canonização de São Josemaria – e transformá-lo a partir de dentro: eis o ideal que o Santo Fundador lhes indica”. E lembrava que São Josemaria, movido por Deus, “sentiu surgir no seu interior a apaixonante chamada pa-ra evangelizar todos os ambientes”, e a seguir evocava o constante ensinamento do santo para que esse ideal apostólico se tornasse realidade: “Primeiro, oração; depois, expiação; em terceiro lugar, muito em terceiro lugar, ação ”(Caminho, n. 82). Esta convicção de que “a fecundidade do apostolado encontra-se, antes de tudo, na oração e numa vida sacramental intensa e constante – concluía o Papa – é, no fundo, o segredo da santidade e do verdadeiro sucesso dos santos”.

3.7 Sobre a base da união com Cristo – a santidade – e dos meios sobrenaturais, o apostolado dos leigos é descrito assim pelo Decreto Apostolicam actuositatem do Concílio Vati-cano II (sobre o apostolado dos leigos): “O próprio testemunho da vida cristã e as boas obras feitas em espírito sobrenatural possuem a força de atraírem os homens para a fé e para Deus [...]. Tal apostolado, no entanto, não consiste apenas no testemunho da vida. O verdadeiro apóstolo pro-cura ocasiões para anunciar Cristo por palavras, seja aos que não crêem para trazê-los à fé, seja aos fiéis para instruí-los, confirmá-los e despertá-los para uma vida mais fervorosa [...]. O Concílio exorta de coração todos os leigos, conforme a capacidade intelectual e a formação de cada qual, que, segundo a mente da Igreja, assumam mais conscientemente as suas responsabilidades no aprofundamento dos princípios cristãos, na sua defesa e na adequada aplicação dos mesmos aos problemas da nossa época” (n. 6). Testemunho [exemplo], palavra [palavra amiga, transmissão de doutrina, catequese, etc.], e preocupação por renovar a sociedade – da qual os leigos são “fer-mento” – com os princípios cristãos: três aspectos que deve assumir o apostolado dos leigos.

3.8 Em poucas palavras, já acima parcialmente citadas, São Josemaria resumia em 1968 essa doutrina, que vinha pregando desde 1928: “O modo específico de os leigos contri-buírem para a santidade e o apostolado da Igreja é a ação livre e responsável no seio das estru-turas temporais, a elas levando o fermento da mensagem cristã. O testemunho de vida cristã, a palavra que ilumina em nome de Deus, e a ação responsável, a serviço dos outros e como contribu-to para a solução dos problemas comuns, são outras tantas manifestações dessa presença atra-vés da qual o simples cristão cumpre a missão para que Deus o chamou. Faz muitíssimos anos, desde a própria data da fundação do Opus Dei, meditei e fiz meditar umas palavras de Cristo relatadas por São João: “E eu, quando for levantado sobre a terra, atrairei tudo a Mim” (João, 12, 32). Cristo, ao morrer na Cruz, atrai a Si a criação inteira; e, em seu nome, os cristãos, trabalhan-do em meio ao mundo, hão de reconciliar todas as coisas com Deus, colocando Cristo no cume de todas as atividades humanas”.

3.9 Finalmente, vale a pena lembrar um texto de São Josemaria, em que, com palavras simples, mostrava “ao vivo” o apostolado característico dos leigos, traçando um quadro do co-tidiano,: “Quem foi que disse que, para falar de Cristo, para difundir a sua doutrina, é preciso fazer coisas esquisitas, estranhas? Faze a tua vida normal, trabalha onde estás, procurando cumprir os deveres do teu estado [solteiro, casado, deveres de pai ou de mãe ...; deveres profis-sionais, deveres de cidadão...], acabar bem as tarefas da tua profissão ou do teu ofício, superan-do-te, melhorando dia a dia. Sê leal, compreensivo com os outros e exigente contigo mesmo. Sê mortificado e alegre. Esse será o teu apostolado. E, sem saberes por quê, dada a tua pobre misé-ria, os que te rodeiam virão ter contigo e, numa conversa natural, simples – à saída do trabalho, numa reunião familiar, no ônibus, ao dar um passeio em qualquer parte –, falareis de inquieta-ções que existem na alma de todos, embora às vezes alguns não as queiram reconhecer: irão en-tendendo-as melhor quando começarem a procurar Deus a sério”

LAICIDADE E LAICISMO


I. Coisas que acontecem

1.1 Vamos começar lembrando alguns fatos mais ou menos recentes, como ponto de partida para uma reflexão esclarecedora sobre temas de importância atual.

1.2 Quando foi levantada e remetida ao Supremo Tribunal Federal a questão da legalidade do aborto de fetos anencéfalos, houve declarações de autoridades governamentais (o então ministro da saúde, Humberto Costa; Nilcéia Freire, em defesa dos "direitos da mulher", etc.), afirmando que esse assunto devia ser estudado exclusivamente como questão de saúde pública, e não do ponto de vista ético (depois veremos o tipo de ideologia que está por trás dessa expressão).

1.3 O mesmo critério foi defendido quando veio à tona o tema das experiências com células-tronco embrionárias, rejeitando a oposição da CNBB, e de muitos outros, como intromissão indevida da Igreja e da religião em assuntos científicos e em decisões de um Estado laico. As críticas, na grande imprensa, chegaram a ser mordazes, ofensivas para a Igreja, para os católicos e para os fiéis de outras crenças que afirmavam que um embrião é mesmo uma vida humana intocável, protegida pela Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU e pela Constituição brasileira. A Igreja foi e continua a ser agredida com acusações de ser "intolerante", "medieval" e, sobretudo, uma "eterna inimiga da ciência", que obstruiria a pesquisa científica e a reflexão racional em nome da fé e dos dogmas religiosos. Com expressões cheias de sarcasmo, quer-se repisar a velha calúnia iluminista de que a fé seria inimiga da ciência e do progresso, e, portanto, inimiga do homem (da saúde, da cura de doenças, da liberdade, etc.). Ninguém falou, porém, do cinismo com que quase toda a mídia silencia e encobre deliberadamente os numerosos progressos e conquistas – não contestados por nenhuma religião nem ética.– que se estão alcançando com células-tronco adultas. Quando o jornal ou a tv falam de uma cura obtida mediante células-tronco adulas, só falam, em geral, de "células-tronco", deixando no ar o equívoco que leva inconscientemente o leitor a pensar que, sem dúvida, são as tão defendidas células embrionárias..


1.4 A agressividade, no assunto das células-tronco embrionárias, tornou-se patente numa Roda Viva de junho, na Televisão Cultura de São Paulo (Também, como é sabido, em artigos de revistas semanais e grandes jornais). Da Roda Viva participavam biólogos, juristas, jornalistas. Sintetizando muito o acontecido, o "moderador" desse "debate", abandonando a necessária isenção, bandeou-se claramente para o lado dos que defendiam o uso dos embriões para pesquisa. Por isso, cortou, indignado, a fala dos que pretendiam provar, com argumentos racionais e científicos (não religiosos) que essa pesquisa é ilícita. Alegava o moderador que, nesse programa, não se debatiam opiniões religiosas, nem éticas (que ele identificava com as religiosas), mas científicas (e esse caráter "científico", só o reconhecia nas opiniões dos partidários de manipular e eliminar o embrião para pesquisa). Com essa atitude, os representantes de outras opiniões sentiram-se amordaçados e desistiram de debater.

O grupo anti-ética – que dizia falar só em nome da liberdade da pesquisa científica – não soube depois como responder a algumas perguntas fundamentais, como a de qual o momento em que começa uma vida propriamente humana, uma vez que o embrião, desde o primeiro instante da sua existência, não é um simples pacote de células, mas uma um ser vivo, que possui tudo quanto é necessário para que, só sendo mantido vivo e alimentado, seja um único e mesmo ser humano esde o momento da concepão até aos 80 anos ou mais anos, até o fim da vida. A pesquisadora – que, num dos seus livros, afirmava que a vida humana se inicia a partir da fecundação do óvulo – não soube responder, mas, com ar de tolerante condescendência (sabendo que contava com o apoio de toda a mídia) respondeu dizendo que tem que ser a sociedade quem "determine", por maioria de opinião dos legisladores (como numa espécie de "definição dogmática conciliar"?), quando é que começa mesmo a vida. Em suma, sem recorrer a critério objetivo e racional – nem científico, nem filosófico – algum, aduziu como "prova" dessa sua afirmação o fato de que, conforme os países, as leis aprovadas pelos respectivos legislativos fixaram critérios diferentes para definir quando se produz a morte clínica e, em conseqüência, podem ser extraídos órgãos para transplante (extraídos do que cada "parlamento" defina dogmaticamente como "cadáver", sem critério científico fixo). Alguém disse que isso lembrava as posições arbitrárias o nazista Mengele, que usou seres humanos como cobaias nos campos de concentração. A resposta da cientista foi que o povo alemão, na altura, estava enganado e não teria aprovado esse procedimento (devia subentender-se, portanto, em boa lógica, que se esse povo – por seus representantes – aprovasse as pesquisas científicas de Mengele, ele estaria certo. Veremos adiante como esta é exatamente a posição que defendem os que, auto-afirmando-se "avançados", retrocedem até anos 30 do século passado, até a barbárie nazista, ainda que não queiram reconhecer o "mengelismo" evidente das suas posições)

1.5 Mais um fato relativamente recente. Nos EUA, no estado do Texas, foi proposto que se retirasse o texto dos Dez Mandamentos, que estava afixado à parede de certos edifícios públicos, seguindo um costume antigo. Alegava-se que era um símbolo religioso, incompatível com o caráter laico do Estado. Parece que a proposta não foi adiante, a não ser em parte. Por essa mesma razão, na França, as meninas muçulmanas foram proibidas de usar o véu tradicional islâmico, e na Alemanha, propôs-se proibir as freiras de levar o hábito nas escolas e repartições públicas (pois o Estado laico é incompatível com "símbolos religiosos"). Não ficaria proibido, porém, em nenhum desses casos, que as alunas fossem à escola, se o quisessem, em roupas sumaríssimas, ou com "uniforme" punk, ou com a vestimenta estereotipada das bandas de rock-satânico, ou com símbolos ostensivos de diversas superstições esotéricas, etc, etc.

1.6 Será que tudo isso são apenas posições de alguns grupos pequenos e clamorosos, ou simples confusões, brigas de opiniões? Não. Em todas essas posições ideológicas, que visam "neutralizar" (como explicitaram os representantes da ONU, autores da "Carta da Terra") a religião e a ética cristã (as "religiões abraâmicas", como dizia também explicitamente a keniana prêmio Nobel da Paz 2005), há uma coerência plena, baseada numa ideologia bem definida, que se deseja impor a todos os países, com força normativa, através dos organismos da ONU e de grupos internacionais e nacionais de pressão, declaradamente anti-cristãos. (Ver o artigo Globalização, religiões e Igreja, no site www.presbiteros.com.br /artigos). Por isso, vale a pena tentar ver claramente qual é essa ideologia. E, para tanto, será necessário esclarecer a diferença entre laicidade e laicismo, e esclarecer também aspectos fundamentais dos conceitos de pluralismo e democracia.


II. Laicidade e pluralismo

(Boa parte das idéias contidas até o final desta palestra estão extraídas ou inspiradas no "Compêndio da doutrina social da Igreja", preparado pelo Pontifício Conselho "Justiça e Paz", e editado pelas Ed. Paulinas, São Paulo, em 2005. Quando, ao lado de algum parágrafo desta palestra, se indicar um número, refere-se a um dos parágrafos numerados desse excelente Compêndio. O Compêndio, nestas questões, remete-se constantemente à "Nota doutrinal sobre algumas questões relativas à participação e comportamento dos católicos na vida política", da Congregação para a Doutrina da Fé, de data 24.11.2002).

2.1 Entende-se por laicidade a distinção entre a esfera política e a religiosa. Chama-se "Estado laico" aquele que não é confessional, isto é, que não adotou – como era comum em séculos passados – uma religião como religião oficial do Estado [como hoje acontece nos países islâmicos]. A Igreja considera essa distinção como um "valor adquirido e reconhecido pela Igreja", que "faz parte do patrimônio da civilização..." (571).

2.2 A laicidade do Estado fundamenta-se na distinção entre os planos secular e religioso. Entre o Estado e a Igreja deve existir, segundo o Concílio Vaticano II, um mutuo respeito pela autonomia de cada parte.

2.3 O princípio de laicidade comporta, portanto, em primeiro lugar, o respeito de todas as confissões religiosas por parte do Estado, o qual deve "assegurar o livre exercício das atividades cultuais, espirituais, culturais e caritativas das comunidades dos crentes. Numa sociedade pluralista, a laicidade é um lugar de comunicação entre as diferentes tradições espirituais e a nação". (572).

2.4 O princípio sadio da laicidade pressupõe:

a) independência (não-dependência) do Estado em relação a qualquer igreja ou comunidade religiosa, e também a independência em relação a posições estritamente religiosas (um credo, um ritual, etc.); bem como a não-intervenção em assuntos estritamente religiosos, de competência exclusiva das igrejas e comunidades (antigamente, p.e., era o Estado que punia os hereges, tanto nos países católicos como nos países protestantes);

b) o respeito, por parte do Estado, do direito à liberdade religiosa, sem outros limites que a ordem pública. Desde que a ordem pública não seja afetada (com tumultos, brigas, mortes, condutas imorais, privações de liberdades fundamentais, etc.), as confissões religiosas gozam da liberdade reconhecida pela Declaração dos Direitos Humanos da ONU, de 10.12.1948, art. 2, 1: "toda pessoa tem direito à liberdade de pensamento, de consciência e de religião. Esse direito inclui [...] o direito de manifestar a sua religião ou crença, individual ou coletivamente, tanto em público como em privado, por meio do ensino, a prática, o culto, etc.". Também a Declaração Dignitatis Humanae (n. 4) do Concílio Vaticano II afirma o direito à liberdade religiosa das diversas confissões religiosas: direito ao culto público, à formação dos seus fiéis, à promoção de instituições conformes com seus princípios religiosos; o direito de não serem impedidas no ensino e profissão pública da sua fé, de palavra ou por escrito; e o direito de estabelecer associações (educativas, culturais, caritativas, sociais, etc.).

2.5 A laicidade, bem entendia, não pode significar, porém, que os católicos e outros crentes devam abster-se de basear-se na "lei moral" em sua atuação social e pública: na defesa do valor da vida humana, da família, da educação, de justiça social, etc. É importante ter em conta que há uma ética, uma moral natural, aprofundada ao longo de milênios já pelos filósofos pagãos, que não é religiosa nem constituída por dogmas de fé. È racional, é a sabedoria acumulada ao longo dos milênios pelos sábios sobre os temas filosóficos mais importantes da "antropologia"; e as suas conclusões racionais são válidas para os crentes e não crentes que admitam usar a razão (ver, abaixo, n. 4.4). Como recorda o "Compêndio de doutrina social", "a laicidade, de fato, significa, em primeiro lugar, a atitude de quem respeita as verdades resultantes do conhecimento natural que se tem do homem que vive em sociedade, mesmo que essas verdades sejam contemporaneamente ensinadas por uma religião específica, pois a verdade é uma só. Buscar sinceramente a verdade, promover e defender com meios lícitos as verdades morais concernentes à vida social – a justiça, a liberdade, o respeito à vida e aos demais direitos da pessoa – é direito e dever de todos os membros de uma comunidade social e política" (571). Ver Nota doutrinal da Congregação para a Doutrina da Fé, n. 6

2.5 A separação entre Igreja e Estado, a "!laicidade" do Estado, não significa, pois, que o Estado negue à Igreja o direito e o dever de contribuir para o bem da sociedade (em assuntos não estritamente "religiosos"), ou que se impeça aos católicos de terem as suas opiniões, de defendê-las e de cumprir com a sua responsabilidade e o seu direito de participar na vida pública, como qualquer cidadão. Um Estado que não respeitasse um espaço para a Igreja na sociedade, ou negasse o direito dos católicos de expressar – como qualquer outro cidadão – as suas opiniões e opções políticas pessoais, teria acabado com a democracia, cairia no sectarismo, no totalitarismo ideológico e prático.

2.6 Como dizia o secretário das relações da Santa Sé com os Estados, o arcebispo Giovanni Lajolo, "quando a laicidade dos Estados é como deve ser, expressão da autêntica liberdade, favorece o diálogo e, portanto, a cooperação transparente e regular entre a sociedade civil e a religiosa, a serviço do bem comum, e contribui para a edificação da comunidade internacional sobre a base da participação e não sobre a exclusão e o desprezo".

2.7 Como se vê, a autêntica e sadia laicidade, defende e respeita o sadio pluralismo (que nenhum católico culto confunde com o indiferentismo religioso). Cada cidadão pode expor e defender – merecendo o respeito de todos – as suas próprias opiniões políticas, sociais, etc..(sejam ou não coincidentes com crenças religiosas ou convicções ideológicas, ou sejam apenas preferências particulares). É perfeitamente compatível (e sumamente desejável) a fidelidade à identidade própria de cada qual e as seus "valores" de vida (p.e. a identidade católica), unida, ao mmesmo tempo, à disponibilidade respeitosa para o diálogo com todos. Esse é o verdadeiro pluralismo na política (569)..

III. O laicismo

3.1 Completamente diferente da laicidade é o laicismo, ideologia que hoje, em todo o mundo ocidental – e cada vez mais no Brasil – pretende se impor como a única admissível. Tem trânsito livre na grande imprensa e na mídia mais poderosa, que é seu porta-voz (o seu "magistério") e, ao mesmo tempo, é o "tribunal da inquisição laica", que fustiga, ridiculariza e "excomunga" todos os que não comungam com esse pensamento.

3.2 Em que consiste o "laicismo"? Como dizia João Paulo II (24-I-2005), é "uma ideologia que leva gradualmente, de forma mais ou menos consciente, à restrição da liberdade religiosa até promover um desprezo ou ignorância de tudo o que seja religioso, relegando a fé à esfera do privado e opondo-se à sua expressão pública". E, em 12-I-2004: "Um reto conceito de liberdade religiosa não é compatível com essa ideologia, que às vezes se apresenta como a única voz da racionalidade [prestem atenção a isso, pois daqui a pouco veremos as contradições dos laicistas neste tema da "racionalidade"]. Não se pode cercear a liberdade religiosa sem privar o homem de algo que é fundamental".

3.3 Em discurso aos bispos dos EUA, em 4-XII-04, João Paulo II sublinhava, além do anterior, que os leigos católicos devem ter clara a sua missão de "estender o Reino de Deus através da sua atividade secular, de sorte que o mundo se impregne do espírito de Cristo e alcance mais eficazmente o seu fim, na justiça, na caridade e na paz [...]. Mesmo respeitando plenamente a separação legítima da Igreja e do Estado [...], a catequese deve também deixar claro que, para o fiel cristão, não pode haver separação entre a fé, que é para ser vivida e posta em prática, e o seu compromisso de participação total e responsável na vida profissional, política e cultural".

3.4 Um Estado que queira respeitar as convicções dos cidadãos "laicistas", pela mesma razão (se quer praticar honestamente o pluralismo democrático) é obrigado a respeitar as convicções dos cidadãos cristãos. Caso contrário, imporia um dogma laico e violaria o princípio de igualdade de direitos.


IV. As falácias do laicismo


4.1 O laicismo quer silenciar os cristãos, afirmando que eles pretendem impor ao Estado posições, soluções ou proibições, que têm apenas como base a fé, coisa que é incompatível com o Estado laico, que não pode adotar soluções "religiosas", mas apenas "racionais". Não hesitam em contrapor, como incompatíveis, razão e fé.

4.2 Aí, insistimos, há uma evidente falácia. Porque, mesmo que os cristãos, cumprindo com o seu dever de consciência, defendam posições em matérias humanas e sociais baseadas nas suas convicções "cristãs", um Estado democrático e pluralista – é preciso repeti-lo, frisá-lo "usque ad nauseam" – deveria respeitar essas posições; da mesma forma que esse Estado acha lógico e necessário respeitar as opiniões de cidadãos que defendem as suas convicções marxistas (convicções que muitos outros cidadãos acham falsas e próprias de uma verdadeira "religião materialista"), ou as convicções hedonistas, ou pan-sexualistas, etc. Como é sabido de todos, se algum "ecologista" ou seguidor do "New Age" defende que os ratos e as baratas têm os mesmos ou até maiores direitos que os homens, nenhum Estado laico vai desclassificá-lo; pelo contrário, reconhecer-lhe-á o direito inalienável à liberdade de pensamento e de expressão, de modo que será punido qualquer um que desrespeite essa opinião ou a impeça de ser defendida democraticamente [e isso será assim, mesmo que esses ecologistas adotem manifestações públicas ofensivas para outros grupos sociais e até ações violentas]. Por sinal, houve uma recente manifestação em São Paulo, na Av. Paulista, contra a vivisecção de animais para pesquisa médica; mas, que se saiba, ninguém ali se opôs à vivisecção de fetos de até vários meses no ventre materno, que, como é sabido, é o sistema habitual de abortar: cortar o feto em pedaços, para extraí-lo do útero materno).

Retomando o fio do discurso, é patente que, hoje, quando um cristão coerente defende as suas convicções, as suas "opiniões" (às quais, como cidadão, tem direito), a máquina laicista vai agredi-lo de palavra e por escrito, vai tentar silenciá-lo e proceder à sua "exclusão" cívica, com o apoio e o aplauso de quase toda a mídia.

4.3 Como, de fato, isto acontece diariamente, entende-se o que diz a Nota doutrinal: "Nas sociedades democráticas todas as propostas são discutidas e avaliadas livremente. Aquele que, em nome do respeito à consciência individual, visse no dever moral dos cristãos de serem coerentes com a própria consciência um sinal (um motivo) para desqualificá-los politicamente, negando a sua legitimidade de agir em política de acordo com as próprias convicções relativas ao bem comum, cairia numa espécie de intolerante laicismo" (n. 6).

4.4 Procuremos dar mais um passo para desmascarar as falácias do laicismo. No campo social e político, os católicos defendem, pode-se dizer que em 99, 9 % dos casos, se não em 100 %, posições que decorrem, não diretamente da religião nem da Revelação divina, mas apenas da Etica racional. Por exemplo, sempre que um cristão combate a favor da vida (contra o aborto, as experiências e manipulações genéticas, etc.), ou do sentido humano da sexualidade, ou do direito à liberdade de ensino, ou da justiça social, etc., faz isso seguindo um ponto de vista filosófico respeitável, baseado na antropologia filosófica e na ética racional, natural (não sobrenatural). Imediatamente, porém, os laicistas militantes acusarão esse cidadão de tentar impor idéias religiosas, contrárias ao caráter laico do estado e à racionalidade da ciência. De nada adiantará, nestes casos, dizer a verdade, isto é, que a Antropologia e a Ética racional alcançaram verdades naturais e aprofundamentos importantíssimos desde há milênios – já o dissemos acima – entre os pagãos, sem qualquer conotação ou dependência religiosa.

Qualquer pessoa culta sabe que os pais da Ética natural, racional, foram os filósofos gregos, principalmente Sócrates e o seu discípulo Platão; depois, dando um enorme passo à frente, Aristóteles ("Ética a Nicômaco", "Grande Ètica"), e os filósofos estoicos (Epicteto), etc., até se chegar a Cícero, com seu tratado moral de inspiração estoica, intitulado "De officiis" ("Dos deveres")", e a Sêneca com suas "Cartas a Lucílio", etc. Nenhum deles pretendia fazer teologia. A indagação fundamental de todos eles não era "o que Deus quer ou manda", mas "qual é a verdadeira felicidade humana", e toda a ética racional foi – também entre muitos cristãos, que sabem distinguir entre Ética racional e Moral cristã – , um esforço da razão para achar as respostas certas a essa indagação básica sobre o verdadeiro bem e a verdadeira felicidade do homem e da sociedade. Esse esforço acumulou séculos de sabedoria e atingiu cumes altíssimos do pensamento humano, que hoje a maioria ignora. Infelizmente, prescindir dessas conquistas acarreta um empobrecimento lastimável da cultura, da vida social e, sobretudo, da dignidade humana.

4.5 Muitos laicistas ignoram (por não saberem mesmo) a história e os tesouros do pensamento ético. Mas muitos outros que não ignoram esses tesouros, na hora de defender as suas posições "mudam de camisa", isto é, abandonam a sua cerrada defesa da "razão contra o obscurantismo religioso", e passam a desprezar e descartar essa mesma "razão" (sim, a razão!). Primeiro, invocavam a razão contra a religião. Agora, contra a pretensão de usar a razão para conhecer a verdade, invocam o agnosticismo, o moderno "dogma de fé" filosófico que afirma ser impossível conhecer a verdade, e por isso não se pode mais falar em "verdade" (572)... Justamente a defesa da razão, o "resgate" da razão contra o agnosticismo é o grande pano de fundo da Encíclica Fides et ratio: "A razão – diz João Paulo II– [em decorrência das filosofias imanentistas e, por isso, agnósticas] curvou-se sobre si mesma, tornando-se incapaz, com o passar do tempo, de levantar o olhar para o alto e de ousar atingir a verdade do ser. A filosofia moderna [...], em vez de se apoiar sobre a capacidade que o homem tem de conhecer a verdade, preferiu sublinhar as suas limitações e condicionalismos. Daí provieram várias formas de agnosticismo e relativismo, que levaram a investigação filosófica a perder-se nas areias movediças de um ceticismo geral" (n. 5).

4.6 É um retrato perfeito do nosso tempo. Suprimida a capacidade de a razão atingir verdades, negada, portanto, a existência de verdades objetivas e universais (pois o agnóstico jamais poderá conhecer ou admitir "verdades"), o que resta? Só a vontade, o puro e simples querer, apetecer, desejar. Toda a Encíclica Veritatis Splendor desmascara e alerta sobre os perigos dessa tendência de fazer da liberdade a fonte da verdade, isto é, de só aceitar como "verdadeiro" e "certo" (por enquanto, porque amanhã o "certo" vai mudar) o que livremente escolhe a "maioria", por consenso. Se ficarem de acordo em dizer que a vida começa quando a criança tem dois anos de idade (e que, em conseqüência, até os dois anos, a criança pode ser retalhada, desmanchada, etc.), esse "consenso" será "a verdade" que todos deverão acatar. Não existe, não resta nenhum "referencial" objetivo, absoluto e permanente da verdade e do bem, fora do desejo, do interesse, dos apetites e paixões, quando se põem de acordo.e chegam ao "consenso" (lembre-se a menção a Mengele na citada Roda Viva).

4.7 Entende-se, por isso, que o Compêndio diga: "Chega´se também e mais radicalmente a negar a ética natural. Esta negação, que faz entrever uma condição de anarquia moral, cuja conseqüência é a prepotência do mais forte sobre o mais fraco, não pode ser acolhida por nenhuma forma legítima de pluralismo, porque mina as próprias bases da convivência humana (572). Certo. Mas, na atual mentalidade predominante, laicista e agnóstica, em que "tudo é convencional e negociável", como dizia João Paulo II, essa "prepotência do mais forte sobre o mais fraco", essa ditadura, é inevitável, pela razão muito simples de que são os mais fortes economicamente, politicamente e "midiaticamente" os que dominam nos organismos políticos nacionais e internacionais, e impõem, como se fosse majoritária, a opinião de uma minoria de grupos poderosos. Por ex., é um fato que, em todas as decisões da ONU e dos seus organismos sobre família, mulher, natalidade, etc.,dominam quase totalmente as poderosas ONGS (transbordantes de dólares) do Movimento Gay e do Movimento Feminista ("for choice", abortista, antinatalista). Centenas de ONGS católicas, ou cristãs de outras denominações, ou simplesmente defensoras da ética natural, são barradas de modo radical e despudorado (além de não obterem um tostão das fontes internacionais que alimentam as outras). E, deste modo, vai-se impondo no mundo, de maneira sistemática, agressiva e massiva, a ideologia laicista, e o mundo cai, sem reparar, no que João Paulo II e Bento XVI chamaram, com toda a razão (ainda que a mídia se exaspere perante essas afirmações), a ditadura do relativismo..


4.7 Por isso, e já como conclusão, é natural que, que o Compêndio (n. 570), citando a Exortação apostólica Christifideles laici, frise o seguinte (que devemos meditar e ajudar a meditar a todos os católicos responsáveis): "Tenha-se presente que, em face das múltiplas exigências morais fundamentais e irrenunciáveis, o testemunho cristão deve considerar-se um dever inderrogável que pode chegar ao sacrifício da vida, ao martírio, em nome da caridade e da dignidade humana (Christifideles laici, n. 39). A história de vinte séculos de Cristianismo, também a do último século, é rica em mártires da verdade cristã, testemunhas da fé, da esperança, da caridade evangélicas. O martírio é o testemunho da própria conformação pessoal a Jesus crucificado, que se expressa até na forma suprema de derramar o próprio sangue, de acordo com o ensinamento evangélico: Se no grão d trigo que cai na terra... morrer, produzirá muito fruto (Jo 12, 24)".

O REINO DE DEUS E A ESPERANÇA


SOBRE O REINO DE DEUS E A ESPERANÇA
(Textos para palestra dada a seminaristas, 13/12/2007)

Pe. Francisco Faus

I – Introdução



1.1 A palavra “Reino”, desde há decênios, é muitas vezes repetida no âmbito eclesiástico: é mencionada constantemente em aulas, palestras, artigos teológicos, livros, subsídios pastorais, reuniões sacerdotais, documentos de organismos eclesiásticos, etc. Fala-se sobre o “Reino” de muitas maneiras: p.e, “construir o Reino”, “servir o Reino”, “lutar para instaurar o Reino na terra”..., etc., etc.

Por isso é importante perguntar-nos: – Afinal, o que significa “Reino”? A experiência evidencia que essa palavra, nos ambientes citados, não é pronunciada com um sentido unívoco. Será que admite sentidos tão diversos e contraditórios? É importante procurar uma resposta equilibrada, uma vez que o “Reino”é um tema fundamental na pregação de Jesus. Da interpretação correta ou equivocada do seu significado decorrem conseqüências, que podem ser muito positivas ou muito negativas.

Nesta palestra, vamos fazer algumas reflexões sobre o significado da expressão Reino de Deus no Evangelho, e procuraremos mostrar como o sentido da esperança cristã está intimamente relacionado com o sentido do Reino.

1.2 Antes de entrar no tema desta palestra, parece-me necessário dar dois esclarecimentos prévios:

a) quase toda ela está baseada em ensinamentos de Bento XVI, de João Paulo II e da Congregação para a Doutrina da Fé, de tal maneira que a maior parte do texto consiste em citações mais ou menos extensamente glosadas;

b) a palestra não pretende ser um estudo bíblico-teológico sobre os temas do Reino de Deus e da esperança. Para isso, seria precisa uma exposição histórica e teológica (história da teologia contemporânea), com um aparato crítico e uma extensão que excedem de longe o nosso propósito.




II – Que é o “Reino de Deus”?


2.1 Uma exposição breve e muito clara sobre este tema encontra-se no livro de Bento XVI Jesus de Nazaré, nos capítulos 3 (“O Evangelho do Reino de Deus”) e 5 (“A oração do Senhor”, quando comenta à invocação “venha a nós o vosso Reino”) [N.B. Vou-me basear, para citar esse livro, na tradução castelhana editada em Buenos Aires por Ed. Planeta, 2007, pois parece-me mais clara que a tradução brasileira].

2.2 Nesse livro, o Papa refere-se sucintamente a uma evolução da teologia, tanto no campo protestante como no católico, que levou de uma concepção sobrenatural do Reino (iniciado na terra pela Encarnação e o Sacrifício Redentor de Cristo, Reino que está presente e vivo na Igreja, e que será plenamente realizado na vida eterna), até uma visão “secular” do Reino, concebido exclusivamente como a realização de uma ordem política, social e cultural mais justa neste mundo.

2.3 Para isso, o Papa começa por fazer uma breve síntese do caminho teológico que levou a essa idéia intra-mundana e política do reino, em que, de fato, Deus acaba sendo dispensado. Sem dúvida, teve uma influência decisiva nessa posição doutrinal – como o Papa menciona no livro – a corrente teológica, predominantemente germânica, que, passando por Bultmann e os “teólogos da esperança” Ernst Bloch e Jürgen Moltmann, chega até à teologia da revolução (cf. Comblin) e à teologia da libertação latino-americana. Ultimamente, o fluxo dessas correntes enlaça, quase se poderia dizer que desemboca, em vários casos, no universalismo colorido do New Age, com a sua pretensão de uma “religião universal” sem Deus pessoal – só um Deus “energia cósmica” ou “espírito do mundo”, força automática e cega –, sem dogmas, sem Igreja, sem Autoridade respaldada por Deus, sem verdades permanentes, sem Mandamentos nem outros princípios morais imutáveis a não ser os da liberdade sem entraves “moralistas”, os da paz e da ecologia, e os do relativismo agnóstico como fundamento da democracia (ver as palestras Globalização, religiões e Igreja, e Sobre a ideologia New Age, no site http://padrefaus.googlepages.com).

2.4 “Estendeu-se – diz o Papa – em amplos círculos da teologia, particularmente no âmbito católico, uma reinterpretação secularista do conceito de «reino » que dá lugar a uma nova visão do cristianismo, das religiões e da história em geral, pretendendo, com essa profunda transformação, que a suposta mensagem de Jesus seja de novo aceitável. Diz-se que, antes do Concílio, predominava o eclesio-centrismo: a Igreja era proposta como centro do cristianismo. Passou-se depois para o cristo-centrismo, apresentando Cristo como centro de tudo. Mas isso, diz-se, separa: não é só a Igreja que separa [[dos não católicos]], também Cristo pertence só aos cristãos [[e, por isso, separaria dos não cristãos]]. De modo que se passou do cristo-centrismo para o teo-centrismo [[só Deus seria o centro]] e, deste modo, se avançava mais um pouco na comunhão com as outras religiões. Mas, mesmo assim, ainda não se havia alcançado a meta, uma vez que Deus também pode ser fator de divisão entre as religiões e entre os homens [[por exemplo, os não crentes]]”.

“Por isso – continua a dizer o Papa – é necessário dar mais um passo até o reino-centrismo, até a centralidade do reino. Este seria, no fim das contas, o coração da mensagem de Jesus, e essa seria a via correta para unir finalmente as forças positivas da humanidade no seu caminho para o futuro do mundo; «reino» significaria simplesmente um mundo em que reinem a paz, a justiça e a preservação da criação. Não se trataria de outra coisa. Esse «reino » deveria ser considerado como o destino final da história. E a autêntica tarefa das religiões seria então a de colaborarem todas juntas para o advento do «reino » ... Por outro lado, todas elas poderiam conservar as suas tradições, viver a sua identidade, mas, mesmo conservando as suas diversas identidades [[como coisa puramente subjetiva, folclórica, sentimental, privada]], deveriam trabalhar por um mundo em que o verdadeiramente importante fosse a paz, a justiça e o respeito pela criação”. Até aqui são palavras do Papa.

Um exemplo dessa posição é a carta escrita há anos a Fidel Castro por uma destacada personalidade católica brasileira, cumprimentando-o (com grave desgosto dos bispos cubanos), porque – segundo essa pessoa – a Cuba comunista seria o primeiro país da América Latina a mostrar os “sinais do Reino” [sic]. Na prática, foi o primeiro país da América Latina a instaurar uma ditadura marxista-leninista.

2.5 “Ora – pergunta também o Papa –, quem é que nos diz o que é propriamente a justiça? O que é que serve realmente à justiça? Como é que se constrói a paz? Na verdade, analisando com detenção essas raciocínios em seu conjunto, eles manifestam-se apenas como uma série de palavreados utópicos, carentes de conteúdo real, a menos que o conteúdo desses conceitos seja, na realidade, uma cobertura para doutrinas de partido que todos deveriam aceitar [[de ideologias como o marxismo, o relativismo-liberal, a mentalidade New Age, etc.]]. Porém, o mais importante – frisa Bento XVI – é que, acima de tudo isso, há um ponto que sobressai: Deus desapareceu, quem atua agora é apenas o homem... A fé, as religiões, são utilizadas para fins políticos. O que conta é apenas a organização do mundo. A religião interessa só na medida em que pode ajudar a isso. A semelhança entre essa visão pós-cristã da fé e da religião com a terceira tentação é inquietante” [[refere-se o Papa à terceira tentação de Cristo no deserto, subentendendo que nessas teorias há um toque diabólico: O demônio... mostrou-lhe todos os reinos do mundo e a sua riqueza e lhe disse: “Eu te darei tudo isso, se caíres de joelhos para me adorar, Mt 4,8-9]]”.

A religião seria, portanto – comentamos nós – , apenas um “pretexto” para facilitar a implantação de uma ideologia (marxista, laicista, “liberal-iluminista”) e a Igreja não passaria de um conjunto de fiéis movidos a sentimentos e desprovidos de doutrina (de “verdades”certas e imutáveis sobre a fé e a moral) e, portanto, facilmente vulneráveis e manipuláveis para os fins político-sociais e a ética laicista e relativista dessas ideologias (que incluem hoje entre seus valores intocáveis – não o esqueçamos – a “abertura” para legislações frontalmente contrárias à lei de Deus: aborto, casamento homossexual, experiências com embriões e fetos humanos, etc.).

2.6 No mesmo livro Jesus de Nazaré, Bento XVI mostra, com argumentos bíblicos que parecem indiscutíveis, que, antes de mais nada, “Jesus é o Reino de Deus em pessoa; onde Ele está, aí está o Reino de Deus ”. E frisa, ao mesmo tempo, que a expressão «reino » significa especificamente a “soberania de Deus” no coração dos homens e, por isso, é só através do coração humano dócil a Deus, do coração que “assume a sua Vontade como critério”, que o «reino » pode chegar a cada pessoa e – , através das pessoas transformadas pela sua docilidade à soberania de Deus – pode chegar ao mundo, às estruturas da sociedade, à cultura, etc., aonde de fato deve chegar o fermento transformador do Cristianismo.

Por isso, comentando a invocação venha a nós o vosso Reino do Pai-nosso, o Papa afirma: “O primeiro e essencial é um coração dócil, para que seja Deus quem reine e não nós. O Reino de Deus chega através do coração que escuta [[que escuta Deus, que escuta Cristo, Palavra de Deus definitiva dirigida a todos os homens, que escuta a Igreja, porta-voz de Deus, abalizado pelo Espírito Santo: quem a vós ouve, a mim me ouve: Lc 10,16]]. Este é o seu caminho. E por isso nós devemos rezar sempre”.

E o Papa completa essa reflexão citando e comentando umas belas palavras de Reinhold Schneider: “A vida neste reino é a continuação da vida de Cristo nos seus; o reino acaba-se [[fica destruído]] no coração que deixa de ser alimentado pela força vital de Cristo; porém no coração tocado e transformado por essa força, ele começa... As raízes daquela árvore que não se pode arrancar procuram penetrar em cada coração. O reino é uno; subsiste só em virtude do Senhor, que é a sua vida, a sua força, o seu centro...”. “Rezar pelo Reino de Deus – acrescenta Bento XVI – significa dizer a Jesus: Deixa-nos ser teus, Senhor! Impregna-nos, vive em nós; reúne no teu corpo a humanidade dispersa para que em ti tudo fique submetido a Deus y Tu possas entregar o universo ao Pai, para que Deus seja tudo para todos (1 Co 15,28)”.

2.7 Afinal, como fica bem claro em todo o Novo Testamento, o Reino de Deus, que está dentro de vós [ou: no meio de vós] (Lc 17,210), tem, como essência, a Vida de Deus (o dom divino que nos torna participantes da natureza divina pela graça do Espírito Santo: cf. II Pedr 1, 4), Vida que nos é obtida pela Redenção de Cristo, graça do Espírito Santo que nos é dada, através da Igreja, já nesta terra, estando destinada a desabrochar em Vida plena e eterna de união com a Trindade e entre nós, em Cristo, no Céu.

2.8 Com grande clareza, São João escreve: Vede que grande presente de amor o Pai nos deu: sermos chamados filhos de Deus! E nós o somos! [...]. Caríssimos, desde já somos filhos de Deus, mas nem sequer se manifestou o que seremos! Sabemos que, quando Jesus se manifestar, seremos semelhantes a Ele [a Deus] porque o veremos tal como Ele é. Todo aquele que espera nele purifica-se a si mesmo... (I Jo 3,1-3).

E São Paulo: Dai graças ao Pai, que vos tornou dignos de participar da herança dos santos na luz. Foi Ele que nos livrou do poder das trevas, transferindo-nos para o reino de seu Filho muito amado, no qual temos a redenção, o perdão dos pecados (Col 1, 12-14).

E ainda São Pedro: Bendito seja Deus, o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo. Em sua grande misericórdia, pela ressurreição de Jesus dentre os mortos, ele nos fez nascer de novo para uma esperança viva, para uma herança que não se desfaz, não se estraga nem murcha, e que é reservada para vós nos céus. (I Pedr 1,3-4). Esse autêntico conceito de esperança cristã, de que está empapado todo o Novo Testamento, é incompatível com a utopia horizontal do reino-centrismo. Com grande profundidade, isso é exposto pelo Papa Bento XVI na Encíclica Spe salvi, de 30/11/2007.

2.9 É evidente, por isso, que o enfoque genuíno da figura e da mensagem de Cristo, tal como o Evangelho o anuncia e a Igreja o pregou desde a sua fundação, não se coaduna com as teologias do reino-centrismo, imanentes e horizontalistas. Sem duvidar da boa fé e do idealismo de muitos desses teólogos, é inegável que esse enfoque teológico reduz o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o próprio Jesus, o Evangelho e a Igreja e tênues sombras mutáveis e evanescentes, sem contornos definidos nem importância decisiva.



III – Esclarecimentos do Magistério sobre o “reino-centrismo”




3.1 É natural que essa visão redutiva do Reino de Deus, e, portanto, de todo o Cristianismo, acarrete conseqüências negativas de bastante transcendência. Sem pretender esgotar a matéria, vamos lembrar algumas dessas conseqüências sobre as quais o Magistério se tem visto no dever de intervir em defesa da fé e do direito dos fiéis católicos à Verdade. Os principais documentos do Magistério a respeito são: a Encíclica Redemptoris missio (7/12/1990) de João Paulo II; a Declaração Dominus Iesus (6/8/2000) da Congregação para a Doutrina da Fé, reforçada por novo documento da mesma Congregação, de 29/6/2007, intitulado Respostas a questões relativas a alguns aspectos sobre a doutrina da Igreja; e, recentemente, a Encíclica Spe salvi (30/11/2007) de Bento XVI).

Como sabem, todos esses documentos podem ser achados facilmente no site www.vatican.va , procurando-os pelo seu título no “busca” da página inicial desse site, ou nas suas páginas específicas.

3.2 Sobre Jesus Cristo. A visão reino-centrista, não raramente vai acompanhada pela negação de que Jesus de Nazaré seja o único Salvador do mundo. Alguns separam o “Verbo” da pessoa de Jesus de Nazaré, afirmando que o “Verbo” se teria encarnado, não só em Jesus, mas de diversas formas, equivalentes e complementares, em personalidades das diversas religiões. Esta é também a tese New-Age, que vê Jesus como mais um dos múltiplos avatares, homens de especial sensibilidade religiosa em que a “energia divina” (panteísta ou meramente cósmica) se teria manifestado de modo mais consciente.

Em face dessas concepções errôneas, a Igreja tem reafirmado com nitidez a fé católica. Vejamos alguns textos do Magistério:

a) Redemptoris missio, n. 11: “Respeitando todas as crenças e todas as sensibilidades, devemos afirmar, antes de mais nada, com simplicidade, a nossa fé em Cristo, único salvador do homem – fé que recebemos com um dom do Alto, sem mérito nenhum da nossa parte. Dizemos com São Paulo: «eu não me envergonho do Evangelho, o qual é poder de Deus para a salvação de todo o crente » (Rm 1,1). Os mártires cristãos de todos os tempos – também do nosso – deram e continuam a dar a vida para testemunhar aos homens esta fé, convencidos de que cada homem necessita de Jesus Cristo, o qual, destruindo o pecado e a morte, reconciliou os homens com Deus [...] A Igreja não pode deixar de proclamar que Jesus veio revelar a face de Deus, e merecer, pela cruz e a ressurreição, a salvação de todos os homens”.

b) Declaração Dominus Iesus, n. 9: “Deve, de facto, crer-se firmemente na doutrina de fé que proclama que Jesus de Nazaré, filho de Maria, e só ele, é o Filho e o Verbo do Pai. O Verbo, que « estava no princípio junto de Deus » (Jo 1,2), é o mesmo « que Se fez carne » (Jo 1,14). Em Jesus « o Cristo, o Filho do Deus vivo » (Mt 16,16) « habita corporalmente toda a plenitude da divindade » (Col 2,9). Ele é « o Filho unigénito, que está no seio do Pai » (Jo 1,18), o seu « Filho muito amado, no qual temos a redenção [...]. Aprouve a Deus que n'Ele residisse toda a plenitude e por Ele fossem reconciliadas consigo todas as coisas, estabelecendo a paz, pelo sangue da sua cruz, com todas as criaturas na terra e nos céus » (Col 1,13-14.19-20).”

E, nos nn. 14 e 15, acrescenta: “Deve, portanto, crer-se firmemente como verdade de fé católica que a vontade salvífica universal de Deus Uno e Trino é oferecida e realizada de uma vez para sempre no mistério da encarnação, morte e ressurreição do Filho de Deus”. [...]

“Neste sentido – continua a Declaração – , pode e deve dizer-se que Jesus Cristo tem para o gênero humano e para a sua história um significado e um valor singulares e únicos, só a Ele próprios, exclusivos, universais, absolutos. Jesus é, de fato, o Verbo de Deus feito homem para a salvação de todos [...] O Senhor é o fim da história humana, ponto para o qual convergem as aspirações da história e da civilização, centro da humanidade, alegria de todos os corações e plenitude dde todos os seus desejos. É Ele que o Pai ressuscitou dos mortos, exaltou e colocou à sua direita, constituindo-O juiz dos vivos e dos mortos » (cf. Gaudium et spes, n. 45). Precisamente esta singularidade única de Cristo é que Lhe confere um significado absoluto e universal, pelo qual, enquanto está na História, é o centro e o fim desta mesma História: “Eu sou o Alfa e o Ómega, o Primeiro e o Último, o Princípio e o Fim” (Ap 22,13) » (cf. Redemptoris missio, n. 6).




3.3 Sobre a Igreja. Depois do que dissemos sobre Jesus, é lógico que a visão reino-centrista rejeite também a necessidade da Igreja fundada por Cristo para a salvação, e até negue a sua origem divina e a sua missão universal. Vamos ver também alguns esclarecimentos do Magistério:

a) A Redemptoris missio: depois de falar da Igreja “sinal e instrumento de salvação”, (n. 9), fazendo eco à Lumen gentium , afirma no n.18: “Se separarmos o Reino de Jesus, ficaremos sem o Reino de Deus por ele pregado, acabando por se distorcer o sentido do Reino, que corre o risco de se transformar numa meta puramente humana ou ideológica [...]. De igual modo, não podemos separar o Reino, da Igreja [...]. Mesmo sendo distinta de Cristo e do Reino, a Igreja todavia está unida indissoluvelmente a ambos. Cristo dotou a Igreja, Seu Corpo, da plenitude de bens e de meios da salvação; o Espírito Santo reside nela, dá-lhe a vida com os Seus dons e carismas, a santifica, guia e renova-a continuamente. Nasce daí uma relação única e singular que, mesmo sem excluir a obra de Cristo e do Espírito fora dos confins visíveis da Igreja, confere a esta um papel específico e necessário. Disto provém a ligação especial da Igreja com o Reino de Deus e de Cristo, que ela tem « a missão de anunciar e estabelecer em todos os povos ».




b) Declaração Dominus Iesus, n. 16: “O Senhor Jesus, único Salvador, não formou uma simples comunidade de discípulos, mas constituiu a Igreja como mistério salvífico: Ele mesmo está na Igreja e a Igreja n'Ele (cf. Jo 15,1ss.; Gal 3,28; Ef 4,15-16; Actos 9,5); por isso, a plenitude do mistério salvífico de Cristo pertence também à Igreja, unida de modo inseparável ao seu Senhor. Jesus Cristo, com efeito, continua a estar presente e a operar a salvação na Igreja e através da Igreja (cf. Col 1,24-27), que é o seu Corpo (cf. 1 Cor 12,12-13.27; Col 1,18) (...) Assim, e em relação com a unicidade e universalidade da mediação salvífica de Jesus Cristo, deve crer-se firmemente como verdade de fé católica a unicidade da Igreja por Ele fundada [...].

“Os fiéis são obrigados a professar que existe uma continuidade histórica — radicada na sucessão apostólica— entre a Igreja fundada por Cristo e a Igreja Católica: « Esta é a única Igreja de Cristo [...], que o nosso Salvador, depois da sua ressurreição, confiou a Pedro para apascentar (cf. Jo 21,17), encarregando-o a Ele e aos demais Apóstolos de a difundirem e de a governarem (cf. Mt 28,18ss.); levantando-a para sempre como coluna e esteio da verdade (cf. 1 Tim 3,15). Esta Igreja, como sociedade constituída e organizada neste mundo, subsiste [subsistit in] na Igreja Católica, governada pelo Sucessor de Pedro e pelos Bispos em comunhão com ele“.




c) Respostas sobre a Igreja, da Congregação para a Doutrina da Fé, de 29/6/2007: Reportando-se à doutrina exposta na Declaração Dominus Iesus e aos documentos do Concílio Vaticano II, estas “respostas” reafirmam que: “Cristo constituiu sobre a terra uma única Igreja e instituiu-a como “grupo visível e comunidade espiritual”, que desde a sua origem e no curso da história sempre existe e existirá, e na qual – e só nela –permaneceram e permanecerão todos os elementos por Ele instituídos. Esta (diz a Lumen Gentium, 8, 2) é a única Igreja de Cristo, que no Símbolo professamos como sendo una, santa, católica e apostólica [...]. Esta Igreja, como sociedade constituída e organizada neste mundo, subsiste na Igreja Católica, governada pelo Sucessor de Pedro e pelos Bispos em comunhão com ele”.

“Na Constituição dogmática Lumen gentium –continua a esclarecer –, subsistência é esta perene continuidade histórica e a permanência de todos os elementos instituídos por Cristo na Igreja Católica, na qual concretamente se encontra a Igreja de Cristo sobre esta terra”.




3.4 Sobre a Evangelização e as Missões: Conseqüência lógica das premissas do “reino-centrismo”, que considera que o “Verbo” se teria manifestado em todas as culturas e todas as religiões, é que não teria sentido querer “converter” povos ou indivíduos não-cristãos ao Cristianismo, pois tudo – crenças, religiões, práticas – seria praticamente equivalente e complementar; a única coisa que importaria seria instaurar o reino universal da paz, etc. A “evangelização” e o trabalho “missional” consistiriam apenas na luta para defender as diversas culturas da influência “imperialista” e anuladora da “Igreja dogmática e moralista”; a evangelização se voltaria, por isso, apenas para a luta sócio-política em defesa dos direitos dos povos e culturas “oprimidos” (real ou imaginariamente), mesmo ao preço de colaborar em conflitos armados ou de compactuar com a guerrilha revolucionária (marxista) e o narcotráfico que a sustenta.

É extremamente lamentável essa postura, que infeccionou inclusive institutos missionários e organismos eclesiásticos responsáveis pelas missões. Chega a causar imensa tristeza ver que alguns, não poucos, parecem pensar que todo o trabalho santo e heróico dos missionários ao longo dos séculos – muitos deles mártires, de santidade exímia , fidelíssimos ao mandato de Cristo: Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda a criatura (Mc 16,15) –, ou foi um engano, ou foi uma “agressão” injusta contra povos e culturas.

Aos que acham que a missão consiste, não em evangelizar e converter, mas principalmente em “inculturar” os próprios missionários nas culturas indígenas, pagãs, etc., e chegam a afirmar que “os missionários é que devem ser evangelizados pelos indígenas”; aos que têm esse lamentável critério, dá vontade de dizer-lhes o que, com sarcasmo de piada de humor negro, dizia um velho missionário: “A mais perfeita “inculturação passiva” desse tipo foi a do coitado do bispo Sardinha, devorado pelos índios antropófagos nas praias do Nordeste, ou seja, plenamente “assimilado” pela digestão dos índios, num ritual indiscutivelmente “cultural”, pois a antropofagia fazia parte essencial da cultura indígena. Então – acrescentava –, por que os “missionólogos” partidários dessa inculturação sem transmissão da fé cristã não oferecem generosamente as suas vidas aos indígenas para uma autêntica “inculturação gastro-intestinal” em que eles sejam o prato forte? Naturalmente, o Magistério também se tem pronunciado sobre esses erros:




a) Toda a Encíclica de João Paulo II Redemptoris missio é uma resposta cabal a essas graves distorções e uma defesa vibrante e cheia de fé da perene validade das missões tal como sempre a Igreja as entendeu: entrega heróica à conversão dos povos, à difusão da verdadeira fé, à abertura, para todos os povos, das fontes da salvação confiadas por Cristo à sua Igreja, respeitando e assimilando corretamente o que, nessas culturas, está em harmonia com a lei divina natural e a doutrina de Cristo, e purificando-as de muitos elementos contrários à lei de Deus e à dignidade humana, em que se refletem os efeitos deletéreos do pecado original e dos pecados pessoais.




b) Bem claro foi também Bento XVI, no seu Discurso na sessão inaugural da V Conferência geral do Episcopado da América Latina e Caribe: “As autênticas culturas não estão fechadas em si mesmas nem petrificadas em determinado ponto da história, mas estão abertas [sem isso, acrescento eu agora, não teria existido jamais “cultura” nem na Europa – que continuaria com as flechas e os javalis do “Asterix” –, nem na Ásia, onde houve influência da cultura milenar chinesa e da cultura da Índia em muitos países; nem em parte nenhuma; esse esttranho empenho em manter as culturas indígenas sem evolução, cristalizadas, petrificadas, é tratar os homens peças de museu ou bichos de reserva ecológica], sendo realmente o Logos encarnado o amor até o extremo, não é alheio a cultura alguma nem a nenhuma pessoa [...] A utopia de dar vida às religiões pré-colombinas, separando-as de Cristo e da Igreja universal, não seria um progresso, mas um retrocesso. Na realidade, seria uma involução para um momento histórico ancorado no passado” (ver “Documento de Aparecida”, editado pela CNBB, pp. 267 a 284).





IV. Escólio sobre a esperança: A doutrina e a mentalidade “reino-cêntrica”, tal como a reprova o Magistério da Igreja, reduz a esperança, como repisamos já nesta palestra, a uma expectativa intra-terrena, à expectativa de que algum dia, não se sabe quando nem como, surgirá a sociedade ideal, cheia de paz, justiça, liberdade e harmonia entre todos os povos, religiões e culturas. Só que utopias desse tipo (p.e., a Internacional Comunista) já cavaram – na prática de quase um século – a mais profunda fossa de desencanto, degeneração moral e depressão econômica em nações inteiras;




4.1 Tal doutrina esquece a realidade elementar de que o pecado existe, e de que não há ideologia ou sistema político-social no mundo capaz de debelar por si, sem a Redenção e a graça, os sete pecados capitais. É patente, hoje, que os países ex-comunistas encontram-se num estado de deterioração dos valores e da prática das virtudes morais e cívicas lamentável, fato que desclassifica por si só amargamente a crença marxista de que a mudança de estruturas, com a supressão da propriedade privada, etc., criaria o “homem novo”. Todos os colegas e conhecidos que estão dedicando a vida a um trabalho de evangelização em países ex-comunistas (República Tcheca, Lituânia, Hungria, Eslováquia, Rússia, etc.) são unânimes em verificar que o tal ”homem novo” criado pelo comunismo se caracteriza, infelizmente, por uma alta densidade de egoísmo, de desconfiança, de preguiça e falta de iniciativa, de deslealdade e de corrupção... Isto não é um exagero tendencioso da “direita” nem um preconceito imaginário. Os “reino-cêntricos” que dizem o contrário, ou vivem no mundo da lua ou mentem. Com isso, evidentemente, não pretendemos afirmar que a ideologia laicista e relativista que domina cada vez mais a civilização ocidental, esteja criando modelos positivos de “homem do futuro”: muito pelo contrário, está dando origem a gerações com deficiências de valores tão graves como as geradas pelo comunismo (pois o liberalismo laicista é tão materialista e ateu quanto o marxismo, e, de dia para dia, vai-se tornando cada vez mais agressivo intolerante com a religião, com uma “ditadura do relativismo” que nada deixa a dever às ditaduras marxistas-leninistas).




4.2 Pensando nessas verificações experimentais, tangíveis, compreende-se a importância da recente Encíclica de Bento XVI, Spe salvi (30/11/2007), sobre a esperança. Não é o momento de expor aqui seu riquíssimo conteúdo, pois isso exigiria não uma, mas várias aulas ou palestras. Penso, porém, que pode nos ajudar ter presentes alguns trechos desse documento:




a) ...”a época moderna desenvolveu a esperança da instauração de um mundo perfeito que, graças aos conhecimentos da ciência e a uma política cientificamente fundada, parecia tornar-se realizável. Assim, a esperança bíblica do reino de Deus foi substituída pela esperança do reino do homem, pela esperança de um mundo melhor que seria o verdadeiro « reino de Deus ». Esta parecia finalmente a esperança grande e realista de que o homem necessita. Estava em condições de mobilizar – por certo tempo – todas as energias do homem; o grande objetivo parecia merecedor de todo o esforço. Mas, com o passar do tempo fica claro que esta esperança escapa sempre para mais longe [...]. E tornou-se evidente que esta era uma esperança contra a liberdade, porque a situação das realidades humanas depende em cada geração novamente da livre decisão dos homens que dela fazem parte. Se esta liberdade, por causa das condições e das estruturas [estados-policiais totalitários ou “ditaduras do relativismo” laicista], lhes fosse tolhida, o mundo, em última análise, não seria bom, porque um mundo sem liberdade não é de forma alguma um mundo bom. Deste modo, apesar de ser necessário um contínuo esforço pelo melhoramento do mundo, o mundo melhor de amanhã não pode ser o conteúdo próprio e suficiente da nossa esperança. E, sempre a este respeito, pergunta-se: Quando é « melhor » o mundo? O que é que o torna bom? Com qual critério se pode avaliar o seu ser bom? E por quais caminhos se pode alcançar esta « bondade »? (n. 30);




b) Só “Deus é o fundamento da esperança – não um deus qualquer, mas aquele Deus que possui um rosto humano e que nos amou até ao fim: cada indivíduo e a humanidade no seu conjunto. O seu reino não é um além imaginário, colocado num futuro que nunca mais chega; o seu reino está presente onde Ele é amado e onde o seu amor nos alcança. Somente o seu amor nos dá a possibilidade de perseverar com toda a sobriedade dia após dia, sem perder o ardor da esperança, num mundo que, por sua natureza, é imperfeito. E, ao mesmo tempo, o seu amor é para nós a garantia de que existe aquilo que intuímos só vagamente e, contudo, no íntimo esperamos: a vida que é « verdadeiramente » vida” (n. 31);




c) “Neste sentido, é verdade que quem não conhece Deus, mesmo podendo ter muitas esperanças, no fundo está sem esperança, sem a grande esperança que sustenta toda a vida (cf. Ef 2,12). A verdadeira e grande esperança do homem, que resiste apesar de todas as desilusões, só pode ser Deus – o Deus que nos amou, e ama ainda agora « até ao fim », « até à plena consumação» (cf. Jo 13,1 e 19,30). Quem é atingido pelo amor começa a intuir em que consistiria propriamente a « vida » [...] Jesus, que disse de Si mesmo ter vindo ao mundo para que tenhamos a vida e a tenhamos em plenitude, em abundância (cf. Jo 10,10), também nos explicou o que significa « vida »: « A vida eterna consiste nisto: Que Te conheçam a Ti, por único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a Quem enviaste » (Jo 17,3). A vida, no verdadeiro sentido, não a possui o homem em si própria sozinho, nem mesmo por si só: aquela é uma relação. E a vida na sua totalidade é relação com Aquele que é a fonte da vida. Se estivermos em relação com Aquele que não morre, que é a própria Vida e o próprio Amor, então estamos na vida. Então, « vivemos »” (n. 27);




d) “Surge agora, porém, a questão: não será que, desta maneira, caímos de novo no individualismo da salvação? Na esperança só para mim, que, aliás, não é uma esperança verdadeira, porque esquece e descuida os outros? Não. A relação com Deus estabelece-se através da comunhão com Jesus – sozinhos e apenas com as nossas possibilidades não o conseguimos. Mas, a relação com Jesus é uma relação com Aquele que Se entregou a Si próprio em resgate por todos nós (cf. 1 Tim 2,6). O fato de estarmos em comunhão com Jesus Cristo implica-nos no seu « ser para todos », fazendo disso o nosso modo de ser. Ele compromete-nos a «ser para os outros », mas só na comunhão com Ele é que se torna possível sermos verdadeiramente para os outros, para a comunidade[...]. Do amor para com Deus consegue-se a participação na justiça e na bondade de Deus para com os outros [...]. o amor de Deus revela-se na responsabilidade pelo outro” (n. 28).


4. 3 É, portanto – comentamos nós agora –, só a partir do amor a Deus, da união com Cristo, da “santidade” que será possível que o verdadeiro Reino de justiça e paz de Cristo vá impregnando as pessoas e, por meio delas – cada qual no seu lugar, e unindo esforços –, as estruturas da sociedade, da política, da cultura, das relações internacionais, etc., pois é certo que o “Reino”, ainda que essencialmente seja “vida em Deus”, deve ser fermento cristão de uma sociedade mais fraterna, mais justa, mais respeitadora da Criação, começando pelo respeito à vida humana desde a sua concepção até o seu termo natural.

Essa é a perspectiva que permite a seminaristas e padres enquadrar a sua grande responsabilidade de serviço ao Reino. Responsabilidade de começar pelas raízes, raízes de fé (de doutrina, não de ideologias), de autêntica cultura cristã-católica, de vida de oração ( a “arte da oração” que, segundo João Paulo II deve caracterizar a Igreja do terceiro milênio), de consciência da “chamada universal à santidade”, de virtudes autênticas, de adoração e culto amoroso da Santíssima Eucaristia, cerne e ápice da vida cristã, de responsabilidade apostólica, de responsabilidade para defender e difundir – sem passividade – a doutrina social da Igreja, etc.




4.4 Enfim, como apostila final, recomendo vivamente reler e meditar a Carta Apostólica Novo millennio ineunte (6/1/2001), de João Paulo II e a sua Exortação Apostólica Christifideles laici (15/12/1988), sobre a missão dos leigos na Igreja e no mundo. A respeito desses temas e outros relacionados, há vários esquemas de palestras no site http://padrefaus.googlepages.com. Voltando aos documentos da Igreja, é importante também conhecer e estudar o Compêndio de doutrina social da Igreja (Ed. Paulinas 2006) e o já citado Documento de Aparecida (29/6/2007), edição da CNBB.




(N.B. Nas anotações desta palestra, coloquei sublinhados em um bom número de textos do Magistério – sublinhados que não se encontram no texto original –, para pôr mais em destaque algumas idéias fundamentais.)

A SANTISSIMA TRINDADE


A Trindade ou Santíssima Trindade é a doutrina acolhida pela maioria das igrejas cristãs que professa a Deus único preconizado em três pessoas distintas: o Pai, o Filho e o Espírito Santo.
Para os seus defensores, é um dos dogmas centrais da fé cristã, considerado um dos mistérios mais difíceis de interpretar e compreender.
Apesar de assumirem a perspectiva trinitária, essas denominações cristãs consideram-se monoteístas. As outras duas grandes religiões monoteístas, o Judaísmo e o Islamismo, bem como algumas denominações cristãs, não aceitam a doutrina trinitária.
A doutrina trinitária professa que o conceito da existência de um só Deus, Onipotente, Onisciente e Onipresente, revelado em Três Pessoas Distintas, pode-se depreender de muitos trechos da Bíblia. Um dos exemplos mais referidos é o relato sobre o batismo de Jesus, em que as chamadas "Três Pessoas da Trindade" se fazem presentes, com a descida do Espírito Santo sobre Jesus, sob a forma de uma pomba, e com a voz do Pai Celeste dizendo: "Tu és o meu Filho amado, em Ti me comprazo" e na fórmula tardia de Mateus: «Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo». O termo "Trindade" não se encontra na Bíblia, pois é o nome dado pela igreja cristã à Doutrina que define a Pessonalidade do Deus da Bíblia, onde Deus é: o Pai, e o Filho e o Espírito Santo.
Ao longo da Bíblia há todo um conjunto de passagens que revelam quer a Divindade, quer a personalidade de cada uma das Três Pessoas Divinas:
No que concerne à divindade de Deus-Filho, referem-se, por exemplo, à Sua Onisciência, à "Sua" Onipotência, à "Sua" Onipresença, ao fato de perdoar os pecados e ser dador da vida em íntima unidade, porém diferenciando as pessoas:
«Eu e o Pai somos um». Contudo, mais do que estas simples passagens isoladas, a afirmação da plena divindade de Jesus é o resultado da reflexão, na Fé, sobre a sua missão redentora contida nas Escrituras - pois a Sua personalidade divina e humana nunca foi seriamente posta em descrédito pela igreja cristã seja ela católica ou protestante.
No que concerne à divindade do Espírito Santo, os trinitarianos reportam-se, por exemplo, à passagem bíblica que chama-O de Deus em, à Sua onisciência, à Sua onipotência, à Sua onipresença e sobretudo ao fato de ser Espírito "de" verdade e "de" vida, prerrogativas que, tais como as apresentadas para Deus-Filho, segundo a Bíblia são única e exclusivamente divinas;
No que concerne à personalidade do Espírito Santo, a terceira pessoa da Trindade, assunto que foi muito debatido ao longo dos primeiros séculos do cristianismo, é comum referirem-se aos atributos d'Este que, tal como os que no Antigo Testamento são aduzidos para a personalidade do Deus do Antigo Testamento, YHWH - cuja divindade e personalidade nunca foram alvo de críticas substanciadas entre os cristãos -, testemunham o seu caracter pessoal: Ele glorificará Cristo; ensina a comunidade e os fiéis, distribui os dons segundo o seu desígnio, fala nas Escrituras do Antigo Testamento, fala para as sete Igrejas na carta do Apocalipse é enviado pelo Pai em nome de Jesus e pelo Filho que enviou da parte do Pai aparecendo como distinto de ambos pois não é Cristo sob outra forma de existência, mas seu representante e testemunha. Mas mais importante do que as passagens isoladas é o conjunto que revela-O como Aquele que tem a missão de recordar, universalizar e realizar em cada pessoa a obra de Jesus, o que não ocorre mecanicamente, mas somente onde houver a liberdade do Espírito, dado que «onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade». Para os cristão trinitários, esta liberdade do Espírito exclui que Este possa ser um princípio impessoal, um meio ou instrumento, mas antes pressupõe a sua independência relativa.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

MENSAGEM DO DIA


O deserto e a terra árida regozijar-se-ão. A estepe vai alegrar-se e florir. Como o lírio ela florirá, exultará de júbilo e gritará de alegria. A glória do Líbano lhe será dada, o esplendor do Carmelo e de Saron; será vista a glória do Senhor e a magnificência do nosso Deus.

Fortificai as mãos desfalecidas, robustecei os joelhos vacilantes. Dizei àqueles que têm o coração perturbado: Tomai ânimo, não temais! Eis o vosso Deus! Ele vem executar a vingança. Eis que chega a retribuição de Deus: ele mesmo vem salvar-vos.

Então se abrirão os olhos do cego. E se desimpedirão os ouvidos dos surdos então o coxo saltará como um cervo, e a língua do mudo dará gritos alegres. Porque águas jorrarão no deserto e torrentes, na estepe. A terra queimada se converterá num lago, e a região da sede, em fontes. No covil dos chacais crescerão caniços e papiros.

E haverá uma vereda pura, que se chamará o caminho santo; nenhum ser impuro passará por ele, e os insensatos não rondarão por ali. Nele não se encontrará leão, nenhum animal feroz transitará por ele; mas por ali caminharão os remidos, por ali voltarão aqueles que o Senhor tiver libertado.

Eles chegarão a Sião com cânticos de triunfo, e uma alegria eterna coroará sua cabeça; a alegria e o gozo possuí-los-ão; a tristeza e os queixumes fugirão.

Profeta Isaías 35, 1-10

Palavra do Padre:

Que realmente se manifeste a Glória do Senhor na sua vida.
Esta semana promete: semana de muita benção!

Amados: As missas estão sendo gravadas e estão disponíveis na Web TV.

Deus abençoe! Paz e Bem!